
Cambaleando, tive que sentar numa sombra da praça e afrouxar o nó da gravata. O verão é assim. Às vezes perde-se o prumo. O verão tem as suas peculiaridades. Percebe-se que cada um derrete à sua maneira. Uns se entregam para a moleza, para o descompromisso e para a nudez, sem qualquer constrangimento, enquanto outros ficam de cabeça quente, com os nervos à flor da pele. Aliás, o verão é alegria, mas também é sinônimo de confusão.
Tudo estava parado. Desgraçadamente parado. Torcia para que uma leve brisa movesse as folhas das árvores para amenizar o clima abafadiço. De repente, o inimaginável aconteceu. O céu passou do azul para o laranja. O sol dobrou de tamanho e ofuscou os meus olhos. Então, comecei a perder os sentidos. Os pombos, coitados, foram caindo chamuscados do céu, um a um, forrando todo o chão da praça. Incrédula, uma idosa que estava passando se comoveu e veio blasfemar em minha direção. Antes de perder completamente os meus sentidos, ainda tive tempo de dizer para ela: "Aqui jazem vários pombos".