dezembro 15, 2013

O inquilino

 
O inquilino foi embora de minha casa. Foi embora de cara feia. Sequer teve o cuidado de varrer a frente forrada de folhas secas. Deixou a soleira da porta de entrada com uma trinca. O piso de tacos de madeira da sala estava arranhado com o vai e vem do sofá. Os azulejos e os rejuntes da copa e cozinha estavam sujos e engordurados. Os quartos estão com as paredes levemente mofadas. Os banheiros em nada lembra a brancura de antes, assim como a área de serviço. Mesmo assim, o inquilino julgou no direito de sair de cara feia, como se tivesse toda a razão do mundo. Deixou em cacos as lembranças da singela casa da minha infância e adolescência.

novembro 11, 2013

Anônimo

 

Certa vez, um homem se aproximou de mim.

Um homem simples, de vestes simples, porém impecáveis.

Um homem educado, que exalava dignidade.

Perguntou se eu precisava de ajuda para qualquer coisa.

Eu disse que não, agradecido.

Não perguntou o meu nome, a minha profissão e nem a minha classe social.

Apenas se colocou à disposição para ajudar em qualquer coisa que eu necessitasse.

Em seguida, me distraí com um menino que brincava ao meu lado.

E num piscar de olhos, acabei perdendo o homem de vista.

Desapareceu, como uma brisa.

outubro 01, 2013

setembro 10, 2013

Uma poetisa no oriente

 
Em viagem para Macau, no distante oriente, ele descobriu histórias de vida interessantes e ligeiramente estranhas. Certo dia, caminhando por uma rua onde a tradição mesclava com a modernidade e onde transeuntes de várias partes do mundo dividiam um espaço ínfimo de circulação, ele observava atento as pessoas por entre as lojas de souvenirs. Em meio a tantas coisas, uma mulher formosa, de meia-idade e com uma tiara de flores no cabelo, lhe chamou a atenção. Seu magnetismo e sua oratória na língua inglesa atraía algumas pessoas ao seu redor, inclusive ele, que foi conferir do que se tratava aquele discurso. Para a sua surpresa, era um recitar de poesias. Por ali ficou um tempo para ouvi-las e também para perguntar sobre a sua vida.

- De onde você veio?
- De Londres.
- Qual a razão de estar aqui recitando poesias em público?
- É uma história atípica. Eu e o meu esposo viemos para cá passar alguns dias de férias como forma também para reatarmos a nossa união. E numa noite dessas, após um agradável jantar, tivemos uma calorosa discussão. Na sua precipitação, ele me largou sozinha no hotel e pegou um voo de volta para Londres.
- Lamento. E aí?
- Nessa mesma noite, onde caí em profundo desalento, tive um sonho. Vi adentrar no quarto do hotel, a figura de um sábio oriental de aspecto firme e milenar. Fiquei perplexa e meio desconfiada. Ele vestia uma túnica marrom com uma insígnia no peito e portava um livreto que tinha a palavra Dharma como título. Não se identificou tampouco disse de onde veio, mas foi sucinto ao falar: "Coloque um vestido bonito, uma tiara de flores no cabelo e vá para a rua recitar as poesias que você escreve em segredo para aqueles que desejarem ouvi-las. Fazendo de bom grado, verás desfeito o revés com o seu esposo."

agosto 17, 2013

Fim dos mundos

 
O telefone tocou. Do outro lado da linha, uma voz engasgada. Era a sua amiga. Estava muito preocupada, no limiar do desespero, afinal amanhã é mais uma daquelas datas em que dizem que o mundo vai acabar. "Esse tal de ser humano é curioso. Não basta a morte individual. Ela tem que ser coletiva" - pensou. Depois de ouvir pacientemente o canto fúnebre de sua amiga, lembranças vieram à tona. Cenas de histeria de seu colega de trabalho, dias atrás. Atolado em dívidas, não pôde evitar o despejo de seu lar. Seu mundo havia se acabado ali. Outra cena. Um escândalo em família. Um parente, que se desdobrava em demonstrar uma brancura imaculada, pôs fim a um casamento de trinta anos ao assumir um envolvimento com uma jovem. Acabou ali o mundo de sua dedicada esposa. De certa forma, algumas pessoas já viveram o fim do mundo.

junho 16, 2013

Janelinha azul turquesa


Antônia era uma negra jovem e bonita, de cabelos trançados e que vivia de pintar e bordar. Havia se mudado recentemente para uma casa numa vila distante, em busca de coisas novas e para fugir da correria dos grandes centros. Desde que mudou para esta vila, adquiriu o hábito de observar os pássaros raros da região na companhia de uma xícara de chá do Ceilão, sempre ao nascer do sol, e toda vez se encantava com os cantos e os voos performáticos dos mesmos. Debruçada na janelinha azul turquesa de sua nova casa, não cansava de admirar tudo o que via. O nascer do sol nas colinas esverdeadas, a vilazinha com casas perfiladas e salpicadas de cores, os baobás que enfeitavam as pracinhas e que curiosamente serviam de moradia para os pintassilgos, e as singelas e agradáveis crianças, que felizes, brincavam e conversavam com os pássaros e os animais da região num dialeto incompreensível. Era um lugar fora dos padrões e diferente de tudo o que conhecia até entãoPela janelinha azul turquesa, abria-se um outro mundo, surpreendente, com uma pincelada surrealista. Apesar do contentamento de estar ali, um estranho desconforto foi invadindo o seu âmago no transcorrer dos dias. Uma sutil ausência de coisas que tinha deixado para trás. Até mesmo das travessuras dos despercebidos e hábeis pardais que costumava observar na urbanizada morada de antes, agora inexistentes nesta região. Um indício da conhecida afeição humana pelas coisas antigas e triviais do passado.

maio 17, 2013

Culto à mesquinhez


Sua notável beleza, com longas e macias madeixas contradiz com seu teor sarcástico ao falar. Na verdade, não sabemos ao certo quem senta ao nosso lado. O fuxico, o vocabulário chulo e a fala ininterrupta, cheio de atropelos, tirou-me o cochilo. Um culto à mesquinhez. Infeliz de quem está próximo ouvindo. Pelo jeito, hoje estou sendo o premiado. Aquele que não fala o que quer, mas está sendo forçado a ouvir o que não quer. Os longos minutos dessa prosa alheia me faz lembrar de outras prosas. Aquelas que saem do nada e que levam a lugar nenhum. Santa ignorância. Queria me levantar e mudar de poltrona, mas perderia a vez. Queria aplicar-lhe um corretivo, mas o bom senso e o equilíbrio não me permite. Afinal de contas, o que tenho haver com isso? Resta-me somente tolerar.

abril 15, 2013

Curva de rio


Pintura: curva de rio (óleo sobre tela) / Autor: Falcão Trigoso

uma curva de rio, uma esquina
até os rios tem esquina
para parar, refletir, conter a fluidez
daquilo que se vai e que se vem
o torvelinho d' água parece nos atrair
quem dera se fosse um louco para mergulhar e se lavar na beira
para transpassar por entre galhos que vieram para ficar
para se enrolar nas folhagens que vieram para descansar
para se lambuzar na lama
chamar a atenção de quem vê
quero mais é que riem de mim

fevereiro 04, 2013

Encontro com uma alma penada

 
No começo era apenas uma vozinha sussurando nos ouvidos. Dias depois, a vozinha alternava com chorinhos de lamentação e uns breves momentos de riso. Somente teve a certeza de que se tratava de uma alma penada, quando na hora do barbear, viu um vulto passar por detrás dele através do espelho. Esse desvio de atenção resultou num pequeno corte da lâmina no rosto, próximo de uma espinha muito feia em tratamento. "Logo agora que estou saindo com a moça mais bonita do curso..." - amargou o rapaz. A vozinha da alma penada, compadecida com o fortuito, quis consolar: "Não se preocupe. A moça é suficientemente madura para compreender isso."

Essa relação homem-alma penada foi ganhando aos poucos uma empatia, quase indissociável, porque essa alma se tornou um depositário de confidências do rapaz e uma carta na manga em momentos-chave, muito mais do que um estorvo, vide um dia em que demonstrando as suas habilidades gastronômicas para a família da moça, foi alertado pela tal alma, que o cordeiro que ele tinha colocado para assar, começava a entrar em processo de queima por causa de sua distração. Porém houve uma noite em que a alma penada, ávida em encontrar seu caminho na eternidade, lamuriava por uma resolução de seu drama pessoal, coincidindo bem na hora do descanso dele. Atencioso, o rapaz negociou com ela: "Deixe-me dormir. Prometo que a partir de amanhã resolveremos isso." Na manhã seguinte, sob pressão da alma penada, dirigiu-se para uma igreja mais próxima, no intuito de direcioná-la através de suas benditas preces para uma sorte melhor. E essas preces tornaram-se um hábito por dias, até chegar ao ponto desse intercâmbio se afrouxar por completo.

janeiro 11, 2013

Sermão


"Não foi por falta de avisos. Você, uma moça do interior, de uma família mais simples, mas que tem experiência de vida e cheia de bons conselhos para dar, tinha tudo para não cair nas ciladas da vida na cidade grande. Está vendo o teu mundo cair, porque acreditou no status a qualquer custo, enganando e passando por cima de todos. Também no seu deslumbramento cego e infantil, se envolveu com um rapaz de posses, de índole duvidosa, que fazendo cara de bom moço e frequentando os mais requintados cafés, nunca te ofereceu nada, nem um ombro amigo. Choras por um homem que jamais cogitou ser o seu namorado? Onde estás com a cabeça! Ele não quer nada com você. Aliás, com a vida! Agora na sua imaturidade, entrega-se na maledicência? Você humilha os teus pais, como se eles não soubessem bulhufas da vida e agora farta do mesmo alimento oferecidos por eles no jantar, onde um dia desses, na sua soberba, reclamou? Já imaginou quantas pessoas queriam esse simples prato de comida? Já se passaram dois anos desde que você foi tentar a vida em outro lugar, e apesar de ainda nova, aparentas uma velha invejosa e crítica, com rancor estampado em seus olhos. Com o teu modo de ser e a sua antipatia, aproxima a solteirice e a solidão até os últimos dias. Pois bem, agora que você está com o seu orgulho ferido, vá para o quarto e reflita!"