dezembro 15, 2013
O inquilino
novembro 11, 2013
Anônimo
Certa vez, um homem se aproximou de mim.Um homem simples, de vestes simples, porém impecáveis.
Um homem educado, que exalava dignidade.
Perguntou se eu precisava de ajuda para qualquer coisa.
Eu disse que não, agradecido.
Não perguntou o meu nome, a minha profissão e nem a minha classe social.
Apenas se colocou à disposição para ajudar em qualquer coisa que eu necessitasse.
Em seguida, me distraí com um menino que brincava ao meu lado.
E num piscar de olhos, acabei perdendo o homem de vista.
Desapareceu, como uma brisa.
outubro 01, 2013
setembro 10, 2013
Uma poetisa no oriente
- De onde você veio?
- De Londres.
- Qual a razão de estar aqui recitando poesias em público?
- É uma história atípica. Eu e o meu esposo viemos para cá passar alguns dias de férias como forma também para reatarmos a nossa união. E numa noite dessas, após um agradável jantar, tivemos uma calorosa discussão. Na sua precipitação, ele me largou sozinha no hotel e pegou um voo de volta para Londres.
- Lamento. E aí?
- Nessa mesma noite, onde caí em profundo desalento, tive um sonho. Vi adentrar no quarto do hotel, a figura de um sábio oriental de aspecto firme e milenar. Fiquei perplexa e meio desconfiada. Ele vestia uma túnica marrom com uma insígnia no peito e portava um livreto que tinha a palavra Dharma como título. Não se identificou tampouco disse de onde veio, mas foi sucinto ao falar: "Coloque um vestido bonito, uma tiara de flores no cabelo e vá para a rua recitar as poesias que você escreve em segredo para aqueles que desejarem ouvi-las. Fazendo de bom grado, verás desfeito o revés com o seu esposo."
agosto 17, 2013
Fim dos mundos
junho 16, 2013
Janelinha azul turquesa
Antônia era uma negra jovem e bonita, de cabelos trançados e que vivia de pintar e bordar. Havia se mudado recentemente para uma casa numa vila distante, em busca de coisas novas e para fugir da correria dos grandes centros. Desde que mudou para esta vila, adquiriu o hábito de observar os pássaros raros da região na companhia de uma xícara de chá do Ceilão, sempre ao nascer do sol, e toda vez se encantava com os cantos e os voos performáticos dos mesmos. Debruçada na janelinha azul turquesa de sua nova casa, não cansava de admirar tudo o que via. O nascer do sol nas colinas esverdeadas, a vilazinha com casas perfiladas e salpicadas de cores, os baobás que enfeitavam as pracinhas e que curiosamente serviam de moradia para os pintassilgos, e as singelas e agradáveis crianças, que felizes, brincavam e conversavam com os pássaros e os animais da região num dialeto incompreensível. Era um lugar fora dos padrões e diferente de tudo o que conhecia até então. Pela janelinha azul turquesa, abria-se um outro mundo, surpreendente, com uma pincelada surrealista. Apesar do contentamento de estar ali, um estranho desconforto foi invadindo o seu âmago no transcorrer dos dias. Uma sutil ausência de coisas que tinha deixado para trás. Até mesmo das travessuras dos despercebidos e hábeis pardais que costumava observar na urbanizada morada de antes, agora inexistentes nesta região. Um indício da conhecida afeição humana pelas coisas antigas e triviais do passado.
maio 17, 2013
Culto à mesquinhez
abril 15, 2013
Curva de rio
Pintura: curva de rio (óleo sobre tela) / Autor: Falcão Trigoso
uma curva de rio, uma esquina
até os rios tem esquina
para parar, refletir, conter a fluidez
daquilo que se vai e que se vem
o torvelinho d' água parece nos atrair
quem dera se fosse um louco para mergulhar e se lavar na beira
para transpassar por entre galhos que vieram para ficar
para se enrolar nas folhagens que vieram para descansar
para se lambuzar na lama
chamar a atenção de quem vê
quero mais é que riem de mim
fevereiro 04, 2013
Encontro com uma alma penada
Essa relação homem-alma penada foi ganhando aos poucos uma empatia, quase indissociável, porque essa alma se tornou um depositário de confidências do rapaz e uma carta na manga em momentos-chave, muito mais do que um estorvo, vide um dia em que demonstrando as suas habilidades gastronômicas para a família da moça, foi alertado pela tal alma, que o cordeiro que ele tinha colocado para assar, começava a entrar em processo de queima por causa de sua distração. Porém houve uma noite em que a alma penada, ávida em encontrar seu caminho na eternidade, lamuriava por uma resolução de seu drama pessoal, coincidindo bem na hora do descanso dele. Atencioso, o rapaz negociou com ela: "Deixe-me dormir. Prometo que a partir de amanhã resolveremos isso." Na manhã seguinte, sob pressão da alma penada, dirigiu-se para uma igreja mais próxima, no intuito de direcioná-la através de suas benditas preces para uma sorte melhor. E essas preces tornaram-se um hábito por dias, até chegar ao ponto desse intercâmbio se afrouxar por completo.
janeiro 11, 2013
Sermão
"Não foi por falta de avisos. Você, uma moça do interior, de uma família mais simples, mas que tem experiência de vida e cheia de bons conselhos para dar, tinha tudo para não cair nas ciladas da vida na cidade grande. Está vendo o teu mundo cair, porque acreditou no status a qualquer custo, enganando e passando por cima de todos. Também no seu deslumbramento cego e infantil, se envolveu com um rapaz de posses, de índole duvidosa, que fazendo cara de bom moço e frequentando os mais requintados cafés, nunca te ofereceu nada, nem um ombro amigo. Choras por um homem que jamais cogitou ser o seu namorado? Onde estás com a cabeça! Ele não quer nada com você. Aliás, com a vida! Agora na sua imaturidade, entrega-se na maledicência? Você humilha os teus pais, como se eles não soubessem bulhufas da vida e agora farta do mesmo alimento oferecidos por eles no jantar, onde um dia desses, na sua soberba, reclamou? Já imaginou quantas pessoas queriam esse simples prato de comida? Já se passaram dois anos desde que você foi tentar a vida em outro lugar, e apesar de ainda nova, aparentas uma velha invejosa e crítica, com rancor estampado em seus olhos. Com o teu modo de ser e a sua antipatia, aproxima a solteirice e a solidão até os últimos dias. Pois bem, agora que você está com o seu orgulho ferido, vá para o quarto e reflita!"
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