Pintura: Sertão (óleo sobre tela) / Autor: Telma Weber
Seu Mário era uma figura carismática. Tinha um sorriso largo e uma generosidade do tamanho do mundo. Sua história de vida é cheia de percalços. Quando era criança, morava lá no sertão. Desde pequeno via seus pais saírem cedo para trabalhar na roça para garantir algum sustento para família. Tinha dez irmãos, sendo que três deles faleceram de escassez antes de completarem um ano. Para eles, morrer era algo tão normal quanto um passarinho que morre na rua ou no seu jardim. Como os seus pais passavam o dia inteiro fora de casa, era o irmão mais velho que cuidava dos mais novos, e quando o irmão mais velho batia asas para o mundo, o segundo mais velho era quem cuidava. E assim sucessivamente. Um modo improvisado de passar pela infância. Quando chegou a sua vez de bater asas para o mundo, decidiu ir para o sudeste, mesmo jovenzinho. No começo sofreu mais privações, ao ponto de morar alguns dias nas ruas e na casa de terceiros. Certo dia, arrumou um trabalho numa fábrica de roupas clandestina. Um trabalho com nenhuma garantia trabalhista. Trabalhava horas a fio, até que um dia, desperto da sua inocência, percebeu que seu ofício era escravagista. Porém, antes de qualquer tentativa de escapar do lugar de servidão, foi ameaçado caso contasse para alguém. Chegou ao ponto de ser amarrado, hostilizado e ridicularizado, até que um dia, o destino abriu um porta que o conduziu de volta para luz do mundo. Já na vida adulta, se casou por três vezes. A primeira esposa foi acometida de um ataque fulminante no coração que lhe tirou a vida. Com a segunda, teve dois filhos, sendo que meses depois, ela lhe arrancou quase tudo, levando embora alguns bens materiais e a sua dignidade para ficar com outro homem. Logo em seguida conheceu a sua esposa atual, que magnânima, lhe ofereceu um ombro amigo e uma companhia para o resto de sua vida. Em meio a tantos infortúnios, um acidente de moto obstruiu a sua mobilidade no auge da vida. Ficou cerca de um ano se tratando com um fisioterapeuta. Ganhou pinos, placas de titânio e um sermão da esposa, para que desacelerasse como homem. Por sorte, se restabeleceu completamente e voltou a andar como antes. Apesar de tudo, as maiores cicatrizes se encontravam em seu âmago. Eram esses e outros tantos traumas vividos durante a sua vida, que logo foram tratados com um estilo de vida que adotou, onde prezava em viajar, em fazer amigos e praticar esportes, mesmo na idade avançada. Quando alguém conversava com ele, se impressionava com a sua experiência e seu porte secular, que encorajava os outros com a afirmação de que ninguém nessa vida escapa ileso, mas que no final das contas se chega ao fim, mesmo aos trancos e barrancos.
