abril 28, 2011

Amar é inevitável


Uma potranca, como ele definia vulgarmente uma jovem vizinha de longos cabelos pretos e de pele branquinha como os vestidos das noivas puritanas, que inexperiente nas questões amorosas, viu adentrar de supetão seu respectivo lar, num berreiro de dar dó, consolada pelo seus entes queridos, por ver seu homem que lhe confiou toda a sua felicidade, surpreendentemente deixá-la e tomar o rumo das algazarras da infidelidade e das bebedeiras. Para ele, um sarrista e observador nato das circunstâncias que lhe avizinha, foi mais um banquete para ridicularizar e desdenhar daqueles que se entregam aos amores desmedidos. Porém o destino, num xeque-mate, também haveria de colocá-lo à prova, tratando de colocar em seu caminho, uma potranca, uma temperamental mulher, para se apaixonar e vivenciar as oscilações do amor.

abril 18, 2011

No divã do taxi

Foto: Ben Fredericson

Abriu a porta e se lançou para o interior do veículo. Instantaneamente, num fragmento de lembrança, ouviu certa vez de sua amiga - "Os condutores de taxi tem opiniões e respostas inteligentes para tudo. Até parece que são iniciados no desvendar dos mistérios humanos." Entre o revezar de cores dos semáforos e da paralisia das esquinas lotadas, conversaram temas variados, até mesmo de cunho enciclopédico, e que veio a culminar na confidência de um desvio comportamental - o hábito de mentir. Mesmo antes de chegar ao seu destino, a passageira ouviu de seu condutor - "Mentiras em excesso tornam-se verdades. Talvez esta seja a mais clássica das metamorfoses." Dias e mais dias isso foi reverberando positivamente na sua consciência para a correção desse seu incômodo desvio. Surpreendente, para alguém que jurava que um condutor de taxi fosse um neurastênico em potencial.

abril 09, 2011

abril 01, 2011

Dia de escuridão

Foto: Felipe Tonello

Primeiras horas de um novo dia. Ainda escuro, entretanto, algo de estranho e inverossímil se sucede. À julgar pelas horas, o sol já deveria ter iniciado sua labuta. Ele resolveu estender o seu descanso. Parecia estar cansado de nossas maledicências a respeito de seus raios. Uma engenharia promoveu uma acareação com um abismo de escuridão que mal conhecíamos. O interessante era notar os estados emotivos e até catalépticos resultantes. Via-se uma grande parcela de desesperados, baseados na crença maçante e nebulosa mais antiga do que o próprio homem - a do fim do mundo. Mas existiam aqueles que mantiveram a calma, a dignidade e o entendimento de que todo descanso se encerra. Também era interessante notar o contentamento de alguns, como os fabricantes de velas artesanais e as lojinhas de artigos religiosos, que fervilhavam uma nova clientela, que pouco ou nada tinham de costumes religiosos, onde antes era frequentado somente por mansas e devotadas senhoras com terçinhos na mão. Nem foi preciso transpor a barreira do meio-dia para que toda essa amálgama se reunisse nas praças e nos centros populares de compras para se perguntarem - o que está havendo? Porque somente os mais sensatos poderiam responder que todo trabalhador é digno de férias.