novembro 26, 2010

Salvo-conduto materno


O viajante foi obrigado a cessar a sua andança pela vereda. Subtraído das providências para sua sobrevivência, lembrou-se dos sábios conselhos das mães incondicionais nas quais subestimou com veemência. "Carregue sempre um pão em seu alforje" - aconselhou sua mãe. Contrito, reconheceu num lapso, mesmo que tardiamente, que não há nada mais valioso que o salvo-conduto materno para colocar-se em passos pelo mundo. Comentou ainda com o primeiro que avistou pela frente, a afirmação que soa uma regra - "Bendito as mães que predizem" - porque é na idade avançada que reside todo o cerne do conhecimento e da experiência.

novembro 17, 2010

O lunático

Foto: André Silvestrin

...aliás, sempre comentavam que ele parecia um lunático. Algumas vezes sentava sob o luar e céu de brigadeiro na expectativa de que algo notório acontecesse naquele quadrante boreal noturno. E acontecia. Caía uma estrela ali, outra acolá. Absorto pelo que descortinava em seu campo visual, a abóboda celeste engendrava mecanismos matemáticos não menos poéticos. Pensava como podia tudo isso passar despercebido pelos outros nas ruas ou em seus próprios lares. Esses mesmos preocupavam em remexer a terra à perscrutar o céu. Preocupavam acima de tudo em assistir em demasia e levar à relevância, programas de tv que valorizam a tristeza e os maus costumes, ao invés de valorizar a alegria, se encantando com o andar contínuo de Marte pela linha imaginária de trânsito, dia após dia, sem pressa no porvir, por entre a lousa cravejada de estrelas. Bem, cada um na sua. Para ele, o fato de tentar compreender a dinâmica do céu, era uma forma de compreender a si mesmo.

novembro 16, 2010

novembro 03, 2010

O ilustre gênio da lâmpada


No mirante com vista para a cidade, os dois irmãos confidenciam sentados no aconchego de um banco. "Tenho um desejo incontido" - disse um deles. Durante o relato do desejo incontido, o que chamava a atenção era o corrupião na árvore ao lado com seu canto mavioso. "Aqui por essas bandas, o corrupião traz bons presságios" - disse. E num hiato, fez-se à luz, e alguns metros adiante e acima, apareceu. Era um gênio da lâmpada presunçoso de um só pedido. "Estou lhe ofertando pronto e acabado" - disse. O amigo do desejo incontido rechaçou - "Não aceito". O gênio da lâmpada reforçou - "Estou lhe ofertando pronto e acabado". O amigo do desejo incontido disse - "Regozijo com os meios, não com os fins". Essa assertiva desconcertou o ilustre gênio da lâmpada. Jamais alguém lhe disse algo contestador com tamanha profundidade e lucidez, ainda mais partindo de alguém com um nível hierárquico divino aparentemente inferior, o que o fez questionar a sua própria divindade auto-outorgada até então. "Nem mesmo as divindades outorgadas mantém-se em pedestais" - reavaliou. Assim, baixou a fronte e desceu de seu pedestal sob o olhar repreensivo dos dois irmãos. "Está bem. Compreendi a moral" - disse. Continuou - " Estou lhe ofertando os meios, porém tenho uma ressalva". "Qual? - disse o amigo do desejo incontido. E o gênio finaliza - "Que me informe seu êxito".