Esse sabiá era sem-vergonha. Adotou a árvore mais frondosa da rua para fazer ninho. A árvore mais antiga, querida e preservada pelos moradores dos muitos prédios da região e que acabou servindo como refúgio para um sabiá. Desconhecendo a rotina pesada de trabalho dos moradores de uma grande metrópole, o sabiá passou de uma hora para outra a cantar durante a madrugada, atrapalhando o sono da vizinhança e causando uma intensa relação de amor e ódio entre os moradores. A rua, antes tranquila e apaziguadora, se tornou tumultuosa, onde a cordialidade foi deixada de lado e as amizades desfeitas. Um grupo de moradores mais radicais pregava à morte do sabiá em detrimento de uma noite mais tranquila de sono. Um deles, que portava uma carabina, foi questionado sobre o motivo de uma atitude tão violenta, e seco, justificou que
aqui na selva de pedra impera a lei dos mais fortes. Os dissidentes, alegando que a natureza não tem hora para se manifestar, foram a favor da manutenção do sabiá ou de uma atitude que não ferisse a integridade do pássaro. Um policial completamente desajuizado que passava por ali, sugeriu o corte da árvore centenária e de outras mais se fosse preciso, para evitar ninhos, comprovando a falta de lucidez e eficiência de alguns seres humanos diante de uma questão de interesse público. Sem um consenso, o imbróglio foi parar na justiça, onde o juiz proclamou a sentença favorecendo a manutenção do sabiá, alegando que isso tudo era passageiro, e ainda sugeriu que procurassem um ornitólogo ou ativistas protetores de pássaros e animais, para que criassem um mecanismo para amenizar o incômodo. Em paralelo, foi se criando uma extensa cobertura dos meios de comunicação, onde debates acalorados questionavam a relação homem versus natureza, esquecendo todos que o próprio homem está inserido no contexto da natureza. Quem saiu ganhando com tudo isso era o público sarrista e despreocupado com as causas alheias, que se divertia com a publicação de memes nas redes sociais.