abril 21, 2012

A mulher que esqueceu a sua alma em algum lugar

Foto: Patrícia C. Costa

Trancou a porta de seu apartamento e desceu em direção a rua em busca de algo que tinha perdido. Não sabia bem o que era. Apenas tinha uma sensação indefinida de que era algo muito importante. Desde a semana passada, ela começou a sentir um grande vazio e uma solidão profunda e taciturna, que lhe rendeu noites mal dormidas e uma baixa imunidade, levando até mesmo a adoecer. Isso tinha relação com essa perda. Talvez esse estado de espírito poderia causar uma certa estranheza, já que possuía uma família amorosa e muitos amigos verdadeiros. À medida que procurava pela rua esse algo indefinível e muito importante, o desespero aumentava, porque sentiu que isso lhe custaria a sua sobrevivência. Sua busca se concentrou nos arredores por onde sempre passou. Pelas calçadas, pelo meio-fio, pelos jardins que enfeitavam a rua e até mesmo por entre os carros estacionados. E nada. Procurou no comércio local e em outros estabelecimentos e as respostas eram sempre negativas. Perguntou para as pessoas que cruzavam o seu caminho: "Por acaso você viu algo que me pertence?" E as pessoas não tinham respostas para uma pergunta tão vaga. Compreendeu logo em seguida, que o que estava procurando, não era algo tangível. Caminhou mais um pouco e teve a feliz ideia de perguntar e se orientar com um jornaleiro, amigo de longa data. O jornaleiro - ombro amigo dos passantes - disse com convicção: "Pelo o que eu vejo, você esqueceu a sua alma em algum lugar." E a sua ficha caiu. Pensativa, sentou numa mesa da padaria ao lado, pediu um café, e entre goles, se perguntou desconfiada e cabisbaixa: "Aonde será que esqueci a minha alma?" Na vida, estamos sempre negligenciando e esquecendo nossas almas por aí, como crianças que se perdem de seus pais.

abril 06, 2012

Uma chuva incessante

Foto: 7 meteor

Era o quinto mês de uma chuva incessante. Em alguns momentos variava a sua intensidade, mas nunca deixava de cair. Apesar dessa condição desfavorável para passeios, ele saía todos os dias pelas ruas munido de seu guarda-chuva, em busca de respostas para o charco que se tornou aquela cidade. De início, toda essa água foi acarretando uma série de problemas de ordem urbana, social e emocional, e que foi lentamente conduzindo moradores e autoridades locais para um outro charco: o da resignação. Não obstante, ele e alguns moradores passaram a questionar a razão de tudo aquilo. Remexendo a sua memória, lembrou de uma conversa que teve com um cidadão de esquina, muito antes de começar a chover. O cidadão, incomodado com a sujeira das ruas e das vielas, alertou: "Veja só (passando o dedo sobre um carro). Essa sujeira impregnada na superfície de todas as coisas, não é uma simples sujeira de poluição. É a sujeira moral acumulada de todos os que vivem nesta cidade, que de tão viscosa, seria necessário um grande acúmulo de água para dissolvê-la." E a natureza com toda a sua sabedoria assim o fez, tratando de efetuar a limpeza num longo e obscuro período, onde quase tudo se perdeu, inclusive a esperança e o calor ameno, mostrando que seria preciso que todos os habitantes daquela cidade fossem mais puros e íntegros.