julho 20, 2012

Nada se perde. Tudo se leva.

Gravura: Carroceiros SP / Artista: Mundano

Tinha um montinho de lixo na calçada. Fazia pouco tempo que colocaram ali. Uns cinco minutos talvez. O suficiente para que uma primeira pessoa fosse dar uma olhada. Essa pessoa era um homem de bicicleta. Parecia um andarilho. Tinha a pele curtida pelo sol, barba grisalha e a solidão como companheira. Ele levou embora todas as latinhas de alumínio.

Não passou nem um minuto para que uma segunda pessoa parasse por ali. Dessa vez era uma mulher. Vestia um longo vestido e o seu pescoço estava abarrotado de colares. Também tinha a pele curtida pelo sol e as suas unhas eram grandes e pintadas de vermelho. Essa parecia uma cigana. Se encantou com um par de sapatos de salto que estavam ali. Levou embora os sapatos para alimentar a sua vaidade.

Pouco tempo depois veio um carroceiro. Parou meio ofegante com o peso do mundo na carroça. Levou embora os papelões com os olhares de fidelidade e admiração de seu cão de estimação.

Outro que deu as caras, foi um jovem carente sonhador. Este se apoderou de algumas apostilas velhas quase inutilizáveis, mas que poderiam servir para algum estudo. Levou-as embora com um brilho nos olhos e uma chama acesa no coração.

Por último, veio o guardinha da rua. Ele olhou, remexeu e não encontrou nada que pudesse aproveitar. Nem alimento, porque um gato já tinha fuçado, fuçado, comido e bagunçado tudo. Para o guardinha sobrou apenas a vigilância da rua.

Com tudo isso, daria até para fazer um trocadilho. Do "nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" para o "nada se perde, tudo se leva."

E assim, o montinho de lixo foi desaparecendo, como coisa efêmera e ilusória, como tudo que nos cerca, assim como os que passaram discretamente por ali com a lida de sobreviver, onde um dia a terra haverá de levá-los também.

julho 10, 2012

Ela não vestia roupas, somente trapos


Minha amiga me apresentou uma moça. Ela morava num barraco de uma favela onde essa minha amiga fazia um trabalho social. Ela era muito bonita. Tinha um olhar envolvente, cabelos compridos e ondulados, um rosto perfeito e um corpo escultural. Por outro lado, seus pés, mãos, unhas e roupas, eram maltratados e até mesmo um pouco sujos. Essa combinação se mostrava de certa forma atraente e afrodisíaco. Ela disparava uns olhares de interesse para mim. Cheguei a convidá-la por inúmeras vezes para sair comigo, por intermédio dessa minha amiga, mas ela sempre recusava. Passei dias e mais dias com um nó na cabeça e uma pedra no coração, na iminência de um relacionamento dos mais excêntricos. Precisava entender o motivo de tantos convites negados. E foi através da minha amiga que fui entender. Ela descobriu que o irmão dela, com fama de delinquente, a convenceu de que ela não valia nada e que não serviria para mim. Mas eu queria dizer para ela, que o seu irmão não sabia o que estava dizendo. Ela assimilou o que o irmão disse como uma verdade incontestável, devido a sua ausência de autoestima. Se há um lugar onde essa ausência é via de regra, esse lugar se chama favela, com seus córregos fétidos e barracos com chão de terra batida. Ela colocou um outro empecilho. Ela não queria sair comigo, porque não tinha uma roupa bonita para vestir. Chegou a comentar para a minha amiga, que não vestia roupas, somente trapos. Mas eu queria dizer para ela, que isso também não importava, e que se fosse preciso, compraria para ela muitas roupas bonitas. Mesmo assim, ela foi se esquivando até desaparecer da minha vida. Acabei vencido pelas circunstâncias que envolvem a miséria.

julho 02, 2012

De passagem

Foto: Rosie Hardy

Já não lhe fazia mais sentido continuar morando na sua cidade natal. Ele sentia que a sua passagem por ali havia terminado. Até porque, aos seus olhos, as cores que davam vida e contornos a cidade, já não eram mais as mesmas, logo padecendo de uma angustiante morosidade. Há quem diga que as pessoas não foram feitas para nascerem, viverem e morrerem no mesmo lugar. Ele também pensava assim. Frequentemente, contemplava nas terras altas dos arredores, o vai e vem lá de baixo das coisas da cidade. Numa contemplação dessas, veio-lhe à cabeça - estamos sempre de passagem. E num passe de mágica, começou a brotar duas asas de suas costas, não como as de um anjo, mas asas suficientemente vigorosas para se deslocar por este mundão, com a finalidade de se completar como pessoa em um outro lugar.