Gravura: Carroceiros SP / Artista: Mundano
Não passou nem um minuto para que uma segunda pessoa parasse por ali. Dessa vez era uma mulher. Vestia um longo vestido e o seu pescoço estava abarrotado de colares. Também tinha a pele curtida pelo sol e as suas unhas eram grandes e pintadas de vermelho. Essa parecia uma cigana. Se encantou com um par de sapatos de salto que estavam ali. Levou embora os sapatos para alimentar a sua vaidade.
Pouco tempo depois veio um carroceiro. Parou meio ofegante com o peso do mundo na carroça. Levou embora os papelões com os olhares de fidelidade e admiração de seu cão de estimação.
Outro que deu as caras, foi um jovem carente sonhador. Este se apoderou de algumas apostilas velhas quase inutilizáveis, mas que poderiam servir para algum estudo. Levou-as embora com um brilho nos olhos e uma chama acesa no coração.
Por último, veio o guardinha da rua. Ele olhou, remexeu e não encontrou nada que pudesse aproveitar. Nem alimento, porque um gato já tinha fuçado, fuçado, comido e bagunçado tudo. Para o guardinha sobrou apenas a vigilância da rua.
Com tudo isso, daria até para fazer um trocadilho. Do "nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" para o "nada se perde, tudo se leva."
E assim, o montinho de lixo foi desaparecendo, como coisa efêmera e ilusória, como tudo que nos cerca, assim como os que passaram discretamente por ali com a lida de sobreviver, onde um dia a terra haverá de levá-los também.


