janeiro 23, 2012

Neste mundo há lugar para todos


Bastou-lhe uma simples olhadela para perceber que todas aquelas pessoas naquele ambiente, estavam presas no ranço do conservadorismo. Nem sequer ousavam empreender algo diferente, fora dos padrões. Tampouco a coragem de questionar e discordar. Muito menos em serem flexíveis para darem um passo para trás quando necessário. Faltava nelas a percepção e a humildade de que um passo para trás num breve momento, pode resultar em dois passos para frente, logo adiante. Para todos ali, o que importava de fato, era a manutenção de suas posições, à custo de renunciarem as suas próprias verdades. Certa vez, quando se aproximou do seu mais novo colega de trabalho, notou que o mesmo sentiu-se incomodado, fazendo um movimento de acomodação e encolhimento em seu assento, como um animal para cercear território. Um claro indício daqueles que se sentem ameaçados. Não há como negar. Uma postura diz tudo. Ao ver essa reação, lembrou de uma afirmativa: "A ameaça é mais um fantasma para atormentar o homem. Engana-se quem pensa que somos feitos adversários." Ciente dessa perseguição ilusória que nos apodera desde sempre, e da posição de vítima em que nos enquadramos, ele colocou a mão no ombro daquele colega e disse algo simples e óbvio, com habilidade e brandura: "Neste mundo há lugar para todos, porque se não fosse assim, não estaríamos todos aqui." Suas palavras ficaram registradas naquele ambiente. E ainda se indagou: "Porque será que é tão difícil o ser humano enxergar as coisas óbvias?"

janeiro 13, 2012

Madrugada no aeroporto


O voo estava marcado para as seis da manhã. Ainda era meia-noite e ele tinha que se virar com as horas. Encostou num canto que lhe parecia o mais quieto e reservado. Tentou dormir, mas o assento, nem um pouco anatômico, não permitia. Quis fazer como as estrangeiras ao lado, que sem cerimônia, estenderam seus colchonetes pelo chão, à guisa de acampamento, para se entregarem a um tranquilo sono reparador.

Então, passou a distrair com a música, depois com a leitura, e por fim, com a escrita, se aventurando a escrever, seja lá o que for. Certa hora, acabou mergulhando numa auto-avaliação. Nessa horas é sempre bom. Fez duas listas, uma com defeitos e outra com virtudes. Colocou cada uma delas na palma das mãos e pesou. Ficou aliviado ao sentir que as virtudes pesavam um pouquinho mais do que os defeitos. Continuava fiel ao seu compromisso de melhorar como pessoa, com o propósito que estabeleceu: acertar mais e errar menos.

Passou a observar as pessoas que chegavam e saíam, e também ouvir as suas falas distantes. Tinham aquelas que chegavam de suas viagens e ligavam para seus familiares. Estes, quando chegavam com seus olhos semi-cerrados, recepcionavam elas com uma frieza das terras nórdicas. Entretanto, ao ver aquilo, não queria julgá-las, porque bem se sabe que o clima da madrugada esfria todo e qualquer gesto caloroso.

Lá no alto da madrugada, decidiu caminhar lentamente pelo aeroporto, observando atento aos detalhes que se apresentavam. Na área vazia do check-in, pôde sentir pelo ar, a ansiedade dos que partiam para o desconhecido e a saudade dos que ficavam, todos sedentos pelas boas novas do porvir.

Desceu uma, duas, três vezes a escada rolante pela contra-mão, até esbarrar com humores distintos, vindos de uma idosa que esboçou um sorriso amoroso com a sua traquinagem, e de um homem engravatado e sisudo, que lhe fitou com olhares de reprovação. Nunca antes fora tão cara-de-pau.

Foi ao banheiro, também vazio, para lavar o seu rosto. Aproveitou a tranquilidade do ambiente para fazer a barba, como se estivesse no recôndito de seu lar, e ainda, olhar profundamente em seus olhos no farto espelho e se aprofundar no existencialismo, com perguntas do tipo: "Qual a razão de ser? Você é realmente feliz?

O horário de seu voo já se aproximava, no entanto, sobrou um tempinho para um bate-papo casual com a mocinha da revistaria, que preocupada com o amanhã, já nem se alimentava direito e já costumava errar nas contas do troco. Pôde dizer um sem número de palavras reconfortantes para ela, que deixou-a mais confiante. Sentiu-se satisfeito por tirar daquele belo rosto feminino, um sorriso de gratidão. A caridade por meio de palavras, não tem hora, local e circunstância para ser praticada.

Como ele percebeu, não tem coisa pior do que longas horas num aeroporto, por mais que ele seja atraente. O ócio na medida certa é benéfico. Quando passa de um limite, torna-se angustiante.

janeiro 05, 2012

A bagagem


A bagagem pesava
Seria necessário desapegar e desfazer de muitas coisas para viver com mais leveza
Desfazer de pequenos objetos materiais sem valor,
das más recordações,
das rixas, picuinhas e tolices.

Não é o que parece,
mas as coisas pequenas geralmente pesam mais do que as grandes
Porque somos assim
Um acumulado de coisas pequenas sem utilidade.