janeiro 13, 2012

Madrugada no aeroporto


O voo estava marcado para as seis da manhã. Ainda era meia-noite e ele tinha que se virar com as horas. Encostou num canto que lhe parecia o mais quieto e reservado. Tentou dormir, mas o assento, nem um pouco anatômico, não permitia. Quis fazer como as estrangeiras ao lado, que sem cerimônia, estenderam seus colchonetes pelo chão, à guisa de acampamento, para se entregarem a um tranquilo sono reparador.

Então, passou a distrair com a música, depois com a leitura, e por fim, com a escrita, se aventurando a escrever, seja lá o que for. Certa hora, acabou mergulhando numa auto-avaliação. Nessa horas é sempre bom. Fez duas listas, uma com defeitos e outra com virtudes. Colocou cada uma delas na palma das mãos e pesou. Ficou aliviado ao sentir que as virtudes pesavam um pouquinho mais do que os defeitos. Continuava fiel ao seu compromisso de melhorar como pessoa, com o propósito que estabeleceu: acertar mais e errar menos.

Passou a observar as pessoas que chegavam e saíam, e também ouvir as suas falas distantes. Tinham aquelas que chegavam de suas viagens e ligavam para seus familiares. Estes, quando chegavam com seus olhos semi-cerrados, recepcionavam elas com uma frieza das terras nórdicas. Entretanto, ao ver aquilo, não queria julgá-las, porque bem se sabe que o clima da madrugada esfria todo e qualquer gesto caloroso.

Lá no alto da madrugada, decidiu caminhar lentamente pelo aeroporto, observando atento aos detalhes que se apresentavam. Na área vazia do check-in, pôde sentir pelo ar, a ansiedade dos que partiam para o desconhecido e a saudade dos que ficavam, todos sedentos pelas boas novas do porvir.

Desceu uma, duas, três vezes a escada rolante pela contra-mão, até esbarrar com humores distintos, vindos de uma idosa que esboçou um sorriso amoroso com a sua traquinagem, e de um homem engravatado e sisudo, que lhe fitou com olhares de reprovação. Nunca antes fora tão cara-de-pau.

Foi ao banheiro, também vazio, para lavar o seu rosto. Aproveitou a tranquilidade do ambiente para fazer a barba, como se estivesse no recôndito de seu lar, e ainda, olhar profundamente em seus olhos no farto espelho e se aprofundar no existencialismo, com perguntas do tipo: "Qual a razão de ser? Você é realmente feliz?

O horário de seu voo já se aproximava, no entanto, sobrou um tempinho para um bate-papo casual com a mocinha da revistaria, que preocupada com o amanhã, já nem se alimentava direito e já costumava errar nas contas do troco. Pôde dizer um sem número de palavras reconfortantes para ela, que deixou-a mais confiante. Sentiu-se satisfeito por tirar daquele belo rosto feminino, um sorriso de gratidão. A caridade por meio de palavras, não tem hora, local e circunstância para ser praticada.

Como ele percebeu, não tem coisa pior do que longas horas num aeroporto, por mais que ele seja atraente. O ócio na medida certa é benéfico. Quando passa de um limite, torna-se angustiante.

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