Foto: Marilene Simão
São sete horas da manhã. Assim é a vida do caminhoneiro exausto. É difícil acordar. Quando paramos para dormir, sempre queremos estender o sono um pouquinho mais, apesar da responsabilidade em cumprir horários e do frequente barulho e movimentação do porto seguro de todos nós - os restaurantes e postos de gasolina.
Um cafézinho pela manhã é muito importante para nos fazer acordar. No entanto, vejo alguns por aí, recorrendo a uma branquinha logo cedo. "Na estrada não há espaço para brincadeiras. A atenção tem que ser redobrada."
Nas retas à perder de vista e nas canções caipiras das estações de rádio, vem inúmeras recordações. O aconchego da casa, o afago da mulher e as brincadeiras dos filhos pequenos. Tudo fica para trás. Na estrada, desenvolvemos o desapego.
Quando estamos dirigindo, achamos que o fluxo da pista contrária, é daqueles que estão na contramão do fluxo natural da vida. Não estão. É que cada um tem o seu caminho.
Nas árduas jornadas pelo asfalto, somos obrigados a conviver com todo o tipo de ruína moral. A prostituição desenfreada, a ação perniciosa dos bandidos e a extorsão quase insuportável dos maus policiais rodoviários.
Mas por outro lado, é recompensador. Tem as delícias de milho verde para degustar, a união e a solidariedade dos companheiros de profissão, os exemplos de fé e agradecimento na peregrinação dos romeiros rumo ao santuário e histórias de vida curiosas das várias pessoas que encontramos pelo caminho. Como esta de um andarilho: "Faz quatro dias que estou caminhando, somente me alimentando das frutas dos pomares de beira de estrada e bebendo água das cachoeiras. Não tenho dinheiro. Fui procurar um emprego na cidade grande e não consegui, porque sou analfabeto. Agora estou voltando para minha cidade natal, para junto de minha mãe. Sei que ainda estou muito longe, mas para quem já caminhou quatro dias, mais um dia não me custa. Com ajuda e a proteção de São Jorge e as bençãos da minha avó falecida, chegarei lá."
