outubro 19, 2010

Desabafo da mesa de bar


Vim ao mundo na forma de mesa
Pareço candango em eterna servidão
Desgastado pela sudorese das garrafas
Pelos bebericos, gargarejos e embates
Dos rapazes e raparigas à pernoitar sobre mim
Interceda ao meu ríspido dono
Aposentadoria

outubro 18, 2010

Quarto de hotel


Pode parecer estranho, mas o homem que se hospedava naquele simples quarto de hotel, com banheiro, uma cama de solteiro, um simples armário e uma pequena mesa, parecia denotar que ele fosse mais um caso de solidão na esfera urbana. Na verdade, ele estava hospedado naquele quarto numa fuga consciente, porque somente ali, no sereno da marginalidade, poderia de fato, separar as impurezas da proveta de sua alma. De onde veio, a turbulência reinava, nada mais comum do que se vê por aí no ninho de relacionamentos humanos, porém, precisava dar um tempo de tudo e traçar metas para alavancar sua vida. Precisava muito, já que a cobrança da sociedade no culto de uma boa posição social vinha a galope, como uma manada de grandes animais a cercá-lo, mesmo no seio familiar, que na sua quietude, disfarçava a pior das cobranças. Entre uma social e outra na saída do quarto, uma leitura de livro, rascunhos de reflexões e análises de seu coração, conseguiu chegar num denominador comum. Agora lhe faltava a coragem de agir. Essa mesma coragem tão citada no heroísmo das experiências do ser humano na poeira do tempo linear, e que nesse momento, o colocou entre a cruz e a espada.

outubro 04, 2010

Reciclagem

Foto: Daniel Barros

Sufocada por se doar muito aos outros, ela ergueu sua mão direita e deu um breve até logo para as pessoas a sua frente. Sem olhar para trás, caminhou cantarolando com seus pés descalços para o vasto campo a perder de vista. Num passe de mágica, sua feição adquiriu novos contornos. Seus olhos se tornaram radiantes e os cabelos ligeiramente elegantes. Sua respiração se tornou menos ofegante e seu andar mais leve e refinado. Era a sua reciclagem. Porém, como de costume, sempre haverá a crítica dos infelizes exorbitantes pelo justo descanso alheio. Contrariando a visão de mundo deles, o vasto campo tocou sua alma mostrando que para estar apto em ajudar os outros, é preciso antes se ajudar. Ela sorriu aliviada, pois percebeu que não existia inteligência na sua humanidade sem limites.