abril 22, 2010

abril 14, 2010

Balaio de gente


Estavam ali os três homens a dividir um pestilento teto na metrópole com as despesas de aluguel, alegrias e desventuras. Quis o destino imposto por eles mesmos inconscientemente por uma irresistível atração chamada de afinidade, de reunir sobre o mesmo teto três figuras com idênticos destemperos de personalidade. De certo, não poderia ser diferente. Alguns elementos da natureza não se misturam. Tiveram a chance de conviver com pessoas de maior envergadura moral e estranhamente recusaram. Nem a ciência explica. Por serem interesseiros e suspeitosos, era fácil de imaginar que eram inimigos das boas e sinceras amizades. Tais quais raposas a se entreolharem, chegaram ao cúmulo de suspeitarem um dos outros no mesmo ar que respiravam. Quis o destino, cômico até, de juntar três num balaio só.

abril 12, 2010

Nas trincheiras


O comportamento daquele homem focado na atraente zona do conforto não lhe permitia a andar por aí, livre e espontâneo, experimentando o leque de possibilidades e desafios que a vida na sua ávida sabedoria ofertava. Espantadiço, tinha medo do novo, do impalpável, costumava mergulhar nas águas da mesmice definhenta onde sequer ondulava. Em alguns momentos vivia militarmente numa desconfiança infundada de tudo e de todos, onde fazia das esquinas, mesmo aquelas alegres e dinâmicas, profundas trincheiras para lhe proteger dos possíveis julgamentos e decepções que as pessoas poderiam provocar. A inércia, no inevitável movimento das coisas, demonstra ser um estado passageiro e sem fundamento, o que fez uma misteriosa mão, segura e ao mesmo tempo delicada, deslocar esse homem do seu eixo habitual para fazê-lo entender que um pequeno passo de olhos fechados para o novo impalpável, soa como um gigantesco passo para seu propósito como homem.

Irmandade


Ele não concordava com denominações. Não dava sermões, longe disso, apenas queria com que os outros reavaliassem seus papéis sociais. Como um filósofo grego a perambular, em cada esquina convidava uma pessoa para pensar. Pai de longa data, também acreditava que tinha o dever de exercer o papel de pai, avô e irmão com as pessoas de fora de seu círculo limitado familiar, porque para ele, a paternidade e a irmandade é inelutável e abrangente.

abril 06, 2010

A tormenta


Parou a beira-mar. Olhou para cima e para os lados. Figuras estranhas desenhavam o céu. As ondas batiam fortemente no píer e o vento forte curvava as árvores e as placas de publicidade. Pessoas corriam apressadas em busca de um abrigo qualquer em meio a chuva que vinha mais forte. Parado ali, fincado naquele metro quadrado muito particular como se estivesse numa bolha, tudo estava calmo, incrivelmente calmo. Não sentia o vento contornar sua face. Estava na posição de observador. Alguns notavam sua presença, outros não. Os que notavam ficaram atônitos ao verem que no interior daquele excelso homem, estava incrustado afirmações em incandescentes letras de vermelho fulgor que diziam: "semelhante a uma sólida coluna", "nem mesmo envergarei", "no olho da tormenta tudo é paz e harmonia".

abril 05, 2010

O andarilho


Aquele andarilho era uma pessoa radical no superlativo. Costumava tumultuar os ambientes com seu modo de ser impulsivo, exarcebado, dispersivo e de opiniões rígidas. Aquilo que se pode nomear como sendo o acaso, algo indefinível, vago e notoriamente alegórico, fora o responsável em conduzi-lo maternalmente a uma paragem de seu caminho para um ensinamento. Nesta paragem notava-se que a faixa central na pista dizia algo para ele. Dizia que seria prudente que ele fosse centrado e evitasse os extremos.

abril 04, 2010

Santa densidade


Mar azul e água turbulenta
Em pauta, a densidade
Santas espumas
A cada onda branca furada
Mágoas apagadas
Santa densidade
As tristezas para sempre levadas

abril 01, 2010

Rima


Nossos infortúnios, pesares
Deixamos lá trás
Propositalmente no continente
Real, visível, porém longínquo
Sorriso brotar, rabiscar
Aqui, amor e alegria são
Como não
Nossas atenções na serena Lua
Estacionada na constelação
Na de Escorpião