dezembro 24, 2014

Leveza

Foto: Hugo Garraio / Tema: Abstrato - Leveza
 
Pedro era uma pessoa tranquila. Vivia num pequeno apartamento, porém limpo e organizado. Seus amigos adoravam visitá-lo, sobretudo porque se deliciavam com o cheiro de lavanda que exalava em sua casa.

Pedro tinha poucas coisas. Era minimalista na decoração. Nas paredes não haviam quadros. No piso frio, não havia tapetes. Os poucos móveis eram simples, porém de bom gosto.

Seus utensílios domésticos eram básicos.

Evitava acumular muitas lembranças. Não deixava à mostra. Então, não se via retratos de ninguém, tampouco de si mesmo.

Não colecionava nada.

Não abria mão da tecnologia, entretanto utilizava com moderação e inteligência. Seus contatos e sua caixa de e-mails eram sempre enxutos.

Trabalhava como freelancer e tinha como ferramenta apenas um notebook. De certa forma, desfrutava de uma liberdade maior.

Sua vestimenta e mais alguns objetos cabiam numa mala.

Na verdade, tudo o que tinha poderia caber em duas malas.

Certa vez, foi alvo de uma crítica abstrata - essa pessoa não tem graça. Nem se importou com isso.

Para quem não o conhecia, dava de entender que ele está sempre de passagem.

Para quem o conhecia, sua leveza admirava.

Parecia uma folha levada pelo vento.

novembro 22, 2014

O sabiá


Esse sabiá era sem-vergonha. Adotou a árvore mais frondosa da rua para fazer ninho. A árvore mais antiga, querida e preservada pelos moradores dos muitos prédios da região e que acabou servindo como refúgio para um sabiá. Desconhecendo a rotina pesada de trabalho dos moradores de uma grande metrópole, o sabiá passou de uma hora para outra a cantar durante a madrugada, atrapalhando o sono da vizinhança e causando uma intensa relação de amor e ódio entre os moradores. A rua, antes tranquila e apaziguadora, se tornou tumultuosa, onde a cordialidade foi deixada de lado e as amizades desfeitas. Um grupo de moradores mais radicais pregava à morte do sabiá em detrimento de uma noite mais tranquila de sono. Um deles, que portava uma carabina, foi questionado sobre o motivo de uma atitude tão violenta, e seco, justificou que aqui na selva de pedra impera a lei dos mais fortes. Os dissidentes, alegando que a natureza não tem hora para se manifestar, foram a favor da manutenção do sabiá ou de uma atitude que não ferisse a integridade do pássaro. Um policial completamente desajuizado que passava por ali, sugeriu o corte da árvore centenária e de outras mais se fosse preciso, para evitar ninhos, comprovando a falta de lucidez e eficiência de alguns seres humanos diante de uma questão de interesse público. Sem um consenso, o imbróglio foi parar na justiça, onde o juiz proclamou a sentença favorecendo a manutenção do sabiá, alegando que isso tudo era passageiro, e ainda sugeriu que procurassem um ornitólogo ou ativistas protetores de pássaros e animais, para que criassem um mecanismo para amenizar o incômodo. Em paralelo, foi se criando uma extensa cobertura dos meios de comunicação, onde debates acalorados questionavam a relação homem versus natureza, esquecendo todos que o próprio homem está inserido no contexto da natureza. Quem saiu ganhando com tudo isso era o público sarrista e despreocupado com as causas alheias, que se divertia com a publicação de memes nas redes sociais.

setembro 19, 2014

Vidas sem rumo


Era o começo de uma fria madrugada na rodoviária. Ele tinha acabado de chegar de uma viagem. Pelo horário não havia metrô, nem táxi, nem ônibus, tampouco uma alma caridosa ou sequer um parente que o levasse para casa. Mal acostumado, sempre dependeu da subserviência dos outros. Não havia outro jeito. Teria que passar a noite por ali, e aprender que nem sempre as coisas saem como o previsto e que nem todos estão sempre a sua disposição. Então sentou-se num banco desconfortável, olhou para o relógio e pensou no que iria se ocupar durante as longas horas até o nascer do sol. Se distraiu no seu smartphone, na leitura de um pequeno livro, e tentou, sem sucesso, dormir ou pelo menos cochilar na dureza do assento. Restou-lhe apenas observar o que se passava ao seu redor. Percebeu que naquele horário, algumas pessoas, que circulam sem rumo durante o dia, escolhem aquele lugar como um abrigo temporário para passar a noite. Se admirou com uma conversa de um ex-detento com uma mulher, que diligente, lhe ofertou uma prece sincera. Podia-se ver no semblante do ex-detento, a gratidão pelo novo sopro de vida. Também reparou numa senhora, que provavelmente foi excluída de seu meio familiar, e o cuidado extremo que ela tinha com seus poucos pertences. Talvez visse neles o que sobrou de tempos felizes. E assim, observando e tentando adivinhar as histórias de vida de cada um que escolheu aquela rodoviária como um abrigo, que ele percebeu o quanto essas pessoas demonstram um resistência física e emocional para vencer a secura de seus dias, o que seria louvável.

agosto 21, 2014

Um dilema

Pintura: Mulher no Céu / Autor: Magritte
 
Tarde de domingo.
Três amigos conversam numa mesa de bar.
Um deles confessa um dilema:
- Duas moças estão interessadas em mim. Uma delas é límpida. Não vi defeitos. É uma ótima companheira, compreensiva e de ótimo astral, além de ser bonita. Um anjo no mundo. A outra também é bonita e legal, mas geniosa e vacilante. Não sei o que fazer.
Seu amigo comenta:
- Está claro. A primeira é que vale a investida.
E ele diz:
- Não. E se eu falar para vocês que a geniosa me atrai mais. Vocês acreditam?
E o outro amigo, num lampejo de sabedoria nunca antes visto, comenta:
- Ora. Há quem prefira a beleza de um céu azul com nuvens do que um céu azul sem nuvens.

junho 16, 2014

Em briga de marido e mulher se mete a colher


Metrô lotado

Calor insuportável

Ânimos exaltados

Um casal começa a discutir

Palavras ofensivas são ditas

As pessoas ao redor se sentem incomodadas

Diz um ditado - em briga de marido e mulher não se mete a colher

Pasmo, não hesitei em interferir

Tinha em mãos algumas rosas

Rosas que havia comprado

Brancas e vermelhas

Para minha namorada

Entreguei as brancas para o casal

Surpresos, entenderam o recado

E silenciaram.

maio 13, 2014

Uma longa caminhada


Um dia resolvi caminhar. Me aventurar numa longa caminhada. Fazer algo diferente e desafiador. Levei o básico. Uma mochila com algumas roupas, uma barraca, água e uma sacolinha com frutas e barras de cereais. Fui sozinho, pois ninguém queria largar o seu conforto para me acompanhar.

Peguei um ônibus até o início do trajeto, numa outra cidade, e de lá comecei a caminhar por uma estrada de asfalto com paisagens deslumbrantes, através de um vale cercado por montanhas. A princípio não estava à vontade, afinal nunca tinha feito isso. Quis recuar mas o compromisso era mais forte. Pela beira da estrada passei por chácaras, plantações de hortaliças e riachos de água cristalina. Deparei com vacas, cavalos e cabras. Alguns cães estranhavam a minha presença. Após muitos quilômetros me senti mais à vontade. Em determinado ponto, a estrada ficou sinuosa. Olhei para trás e vi o quanto tinha andado. Era a subida da serra. Nesse momento a minha preocupação não era o cansaço, pois estava bem. Estava preocupado onde poderia montar a minha barraca para passar a noite, já que o fim de tarde se aproximava. Após alguns quilômetros vi um bosque tranquilo e um cantinho reservado para ficar. Me senti mais aliviado. O lugar era inóspito e inspirador. O vento batia nas grandes araucárias provocando uivos que até então nunca tinha ouvido. Nesse momento pensei o quanto fui destemido, mas ao mesmo tempo prudente a cada movimento que fazia. Estava no meio do nada. Montei a barraca e aguardei o sol se pôr meditando e conversando com as árvores. Até abracei algumas delas. Por volta das 18h me recolhi. A partir daí o meu maior companheiro era o frio. Estava agasalhado, porém notei que não seria o suficiente para passar a noite. Lá fora se ouvia o barulho dos veículos que passavam pela estrada. Com o passar das horas a estrada foi silenciando. Um ou outro veículo passava. Certa hora, comecei a ouvir uma cavalgada que vinham em levas pela estrada. Ouvia os burburinhos dos peões e fiquei curioso imaginando de onde vinham e para onde iam na escuridão. Fiquei perplexo como a floresta produz ecos. Ouvia o barulho um pouco assustador de pássaros e animais de hábitos noturnos. O frio não me deixava dormir. Nesse momento refleti sobre a importância do essencial em nossas vidas. Da importância de um banho quente. De uma xícara de café. De um prato de comida simples. Da pizza não muito boa que meus amigos reclamaram um dia desses na pizzaria. Devemos ser mais contidos em reclamar daquilo que a vida nos oferece. Lembrei de uma frase do escritor Saint-Exupéry - o essencial é invisível aos olhos. Na verdade, uma das minhas intenções nessa caminhada era de sentir um pouco a privação para evitar o queixume exagerado, dando mais valor as coisas ordinárias da vida.

Após uma noite longa e gelada, não via a hora de retomar a caminhada. Comi alguma coisa e desmontei o meu acampamento selvagem. A manhã estava linda e retomei a minha jornada apreciando os primeiros raios de sol que atravessavam a floresta. A estrada parecia só minha, e beirando ela, pude finalmente caminhar tranquilo, certo de que os desafios mais difíceis haviam passado. Num certo trecho, vi uma placa que indicava que ali era o Caminho da Fé. A estrada era toda florida. Nesse trecho nunca me senti tão livre. Não havia amarras. Não havia pensamentos. Somente o barulho do meu trote e o vento frio em meu rosto. Quilômetros à frente, vilas aparecem. Cruzo com algumas pessoas que gentilmente me desejam um bom dia. Retribuo. Numa paragem, entrei numa igrejinha abandonada para descansar, hidratar e me alimentar. Ali surgiu o cansaço. De acordo com o mapa ainda faltava um bom trecho. Certamente o mais difícil. O meu lema dali em diante foi esse - devagar e sempre.

O trecho final era sinuoso com muitos carros. Fiquei atento. De vez em quando surgia ciclistas aventureiros percorrendo o mesmo caminho. Também havia grupos de motoqueiros que transitavam por ali em busca de aventuras. Um deles se aproximou de mim e me disse: "Curto caminhada! Você é que nem a gente!" Nesse momento me senti acolhido. A natureza e a estrada desperta nas pessoas uma grande irmandade. Em contrapartida, pude notar um olhar de estranhamento das pessoas nos carros, seguramente turistas, que provavelmente nada entendem de caminhadas e vivências na natureza. Talvez se perguntavam: "O que faz esse rapaz caminhando na beira da estrada?" Diria para eles que sou apenas uma pessoa fazendo algo inusitado em busca do autoconhecimento e da liberdade.

Exausto, percorri os últimos quilômetros por uma estrada de terra bem próximo a cidade que marca o fim dessa minha jornada. As pernas cansaram. Bolhas apareceram nos meus pés. O meu corpo pedia descanso devido a noite mal dormida.

Acabei chegando ao meu destino. A rodoviária. Comprei a passagem de volta para minha cidade cansado, mas feliz e renovado.

Foram aproximadamente uns 50km de caminhada, divididos em dois dias de perrengue e contentamento, onde pude me desintoxicar da vida moderna, rompendo com a rotina de outrora.


Trajeto: São Bento do Sapucaí até Campos do Jordão via Estrada do Paiol Grande-Campista.

abril 02, 2014

março 11, 2014

Contratempos de um capitão

Pintura: Navio Pesqueiro / Autor: Sandro José da Silva
 
O velho capitão era um profundo conhecedor das águas do mar do norte. Ele e mais alguns homens partiram para a pesca em águas profundas, a bordo do navio pesqueiro mais destemido da região.

Num dia de mar agitado e temperatura congelante, o capitão determinou: "A pesca não foi boa e as expectativas não são muito animadoras. Vamos antecipar a nossa volta."

O consenso foi geral, entretanto, o argumento utilizado para justificar essa decisão foi contestado. Segundo ele, Netuno - o deus dos mares - não havia cooperado para o sucesso. Um dos homens retrucou: "Conspirar contra Netuno é uma blasfêmia. Apesar das dificuldades, estamos satisfeitos e agradecidos pelo que Netuno nos ofereceu." Traços de ingratidão foram percebidos no semblante do velho capitão.

Com a decisão tomada, os esforços se voltaram em chegar a tempo para o primeiro aniversário de seu neto. O nascimento do menino deu um novo ânimo para um homem cansado pelas intempéries da vida.

Após longas horas de viagem, se avistava no horizonte as falésias e o farol amigo das embarcações. O entardecer vinha a galope e quanto mais o navio pesqueiro se aproximava da costa, mais o oceano dificultava. "É estranho. Parece que a corrente marítima se inverteu e uma espessa neblina vem caindo" - comentou um preocupado capitão. Um outro homem, sábio nas lides do oceano afirmou: "Netuno está lhe dando um corretivo. Isso é recorrente dos deuses."

E o que sucedeu, foi um confronto da força do homem frente a força da natureza.

Certa hora, o capitão, de joelhos dobrados e coração dilacerado com a possibilidade de não chegar a tempo para um afago em seu netinho, reconheceu a sua fragilidade e seu equívoco, e com isso fez despontar à sua frente um caminho suave, guiado pelo voo seguro de algumas gaivotas, rumo ao encontro com o seu querido neto.

fevereiro 16, 2014

No mundo do circo


Era manhã de sábado numa pacata cidade do interior. Pelas ruas de pedras, pouco movimento. Na pracinha central alguns habitantes se reuniam para a conversa do dia.

Por volta das dez da manhã, a pequena cidade foi sacudida por um tropel. Um pequeno mas barulhento circo, que aguçou a curiosidade de todos. Os habitantes se renderam para a novidade. No meio deles havia um jovem, que vendo tudo aquilo se mostrou animado.

Encantado com os jogos de malabares, com a esperteza dos mágicos e com a alegria espontânea dos palhaços, viu no espetáculo e sua itinerância, a oportunidade que em segredo tanto aguardava - de sair pelo mundo. Para ele, o tédio era o maior pecado da cidade.

Durante a noite, ele se deslocou até o acampamento do grupo para conhecer os bastidores do espetáculo. Foi bem recebido. Pespicaz, não demorou em flertar os seus olhos numa bela moça, integrante do grupo. Ela falava um portunhol confuso, que dificultava um pouco a comunicação, mas que não foi um empecilho para investir, quem sabe, num relacionamento amoroso que facilitasse a sua inclusão no meio deles. Foi um flerte com prudência, pois descobriu que ela era filha do exímio atirador de facas.

Seu intento acabou dando certo. Conseguiu conquistá-la na curta passagem do circo pela cidade. Agarrou a oportunidade que a vida lhe deu à sua maneira, engendrado. Sua conquista baseado na lábia logo se transformou num amor verdadeiro com o passar dos dias. Nada como uma convivência respeitosa e sincera para despertar um bom sentimento.

No fim das contas, esse relacionamento amoroso foi o passaporte para a sua inclusão no mundo do circo, onde se propôs a aprender o ofício dos artistas e seguir pela estrada da vida como companheiro fiel da moça. Um mundo na qual buscava, onde o passado logo se dissipa, onde o futuro sempre se apoia na incerteza e o presente é algo palpável.