Um dia resolvi caminhar. Me aventurar numa longa caminhada. Fazer algo diferente e desafiador. Levei o básico. Uma mochila com algumas roupas, uma barraca, água e uma sacolinha com frutas e barras de cereais. Fui sozinho, pois ninguém queria largar o seu conforto para me acompanhar.
Peguei um ônibus até o início do trajeto, numa outra cidade, e de lá comecei a caminhar por uma estrada de asfalto com paisagens deslumbrantes, através de um vale cercado por montanhas. A princípio não estava à vontade, afinal nunca tinha feito isso. Quis recuar mas o compromisso era mais forte. Pela beira da estrada passei por chácaras, plantações de hortaliças e riachos de água cristalina. Deparei com vacas, cavalos e cabras. Alguns cães estranhavam a minha presença. Após muitos quilômetros me senti mais à vontade. Em determinado ponto, a estrada ficou sinuosa. Olhei para trás e vi o quanto tinha andado. Era a subida da serra. Nesse momento a minha preocupação não era o cansaço, pois estava bem. Estava preocupado onde poderia montar a minha barraca para passar a noite, já que o fim de tarde se aproximava. Após alguns quilômetros vi um bosque tranquilo e um cantinho reservado para ficar. Me senti mais aliviado. O lugar era inóspito e inspirador. O vento batia nas grandes araucárias provocando uivos que até então nunca tinha ouvido. Nesse momento pensei o quanto fui destemido, mas ao mesmo tempo prudente a cada movimento que fazia. Estava no meio do nada. Montei a barraca e aguardei o sol se pôr meditando e conversando com as árvores. Até abracei algumas delas. Por volta das 18h me recolhi. A partir daí o meu maior companheiro era o frio. Estava agasalhado, porém notei que não seria o suficiente para passar a noite. Lá fora se ouvia o barulho dos veículos que passavam pela estrada. Com o passar das horas a estrada foi silenciando. Um ou outro veículo passava. Certa hora, comecei a ouvir uma cavalgada que vinham em levas pela estrada. Ouvia os burburinhos dos peões e fiquei curioso imaginando de onde vinham e para onde iam na escuridão. Fiquei perplexo como a floresta produz ecos. Ouvia o barulho um pouco assustador de pássaros e animais de hábitos noturnos. O frio não me deixava dormir. Nesse momento refleti sobre a importância do essencial em nossas vidas. Da importância de um banho quente. De uma xícara de café. De um prato de comida simples. Da pizza não muito boa que meus amigos reclamaram um dia desses na pizzaria. Devemos ser mais contidos em reclamar daquilo que a vida nos oferece. Lembrei de uma frase do escritor Saint-Exupéry -
o essencial é invisível aos olhos. Na verdade, uma das minhas intenções nessa caminhada era de sentir um pouco a privação para evitar o queixume exagerado, dando mais valor as coisas ordinárias da vida.
Após uma noite longa e gelada, não via a hora de retomar a caminhada. Comi alguma coisa e desmontei o meu acampamento selvagem. A manhã estava linda e retomei a minha jornada apreciando os primeiros raios de sol que atravessavam a floresta. A estrada parecia só minha, e beirando ela, pude finalmente caminhar tranquilo, certo de que os desafios mais difíceis haviam passado. Num certo trecho, vi uma placa que indicava que ali era o
Caminho da Fé. A estrada era toda florida. Nesse trecho nunca me senti tão livre. Não havia amarras. Não havia pensamentos. Somente o barulho do meu trote e o vento frio em meu rosto. Quilômetros à frente, vilas aparecem. Cruzo com algumas pessoas que gentilmente me desejam um bom dia. Retribuo. Numa paragem, entrei numa igrejinha abandonada para descansar, hidratar e me alimentar. Ali surgiu o cansaço. De acordo com o mapa ainda faltava um bom trecho. Certamente o mais difícil. O meu lema dali em diante foi esse -
devagar e sempre.
O trecho final era sinuoso com muitos carros. Fiquei atento. De vez em quando surgia ciclistas aventureiros percorrendo o mesmo caminho. Também havia grupos de motoqueiros que transitavam por ali em busca de aventuras. Um deles se aproximou de mim e me disse: "Curto caminhada! Você é que nem a gente!" Nesse momento me senti acolhido. A natureza e a estrada desperta nas pessoas uma grande irmandade. Em contrapartida, pude notar um olhar de estranhamento das pessoas nos carros, seguramente turistas, que provavelmente nada entendem de caminhadas e vivências na natureza. Talvez se perguntavam: "O que faz esse rapaz caminhando na beira da estrada?" Diria para eles que sou apenas uma pessoa fazendo algo inusitado em busca do autoconhecimento e da liberdade.
Exausto, percorri os últimos quilômetros por uma estrada de terra bem próximo a cidade que marca o fim dessa minha jornada. As pernas cansaram. Bolhas apareceram nos meus pés. O meu corpo pedia descanso devido a noite mal dormida.
Acabei chegando ao meu destino. A rodoviária. Comprei a passagem de volta para minha cidade cansado, mas feliz e renovado.
Foram aproximadamente uns 50km de caminhada, divididos em dois dias de perrengue e contentamento, onde pude me desintoxicar da vida moderna, rompendo com a rotina de outrora.
Trajeto: São Bento do Sapucaí até Campos do Jordão via Estrada do Paiol Grande-Campista.