dezembro 21, 2011

dezembro 11, 2011

Diálogo com Papai Noel


Em algum lugar, próximo ao círculo polar ártico.

- De onde o senhor veio?

- Do pólo norte. (resposta vaga)

- E para onde o senhor está indo?

- Para algumas regiões do hemisfério sul.

- Por curiosidade. Como é que o senhor dá conta de tantos pedidos?

- Eu não estou só. Somos uma legião de bons velhinhos. Desempenhamos a mesma tarefa, cada um cobrindo uma região pré-estabelecida. Entretanto, nós atendemos somente os pedidos feitos com o coração e temos a missão maior de manter acesa a chama da magia natalina e promover a harmonia familiar dentro de todos os lares.

- Que belo trabalho. No fundo, eu sempre acreditei na sua existência e de muitas outras coisas consideradas fantásticas. Seria muito tedioso se não fosse assim. Porém, muitos sequer cogitam essas possilidades. É como a minha avó disse certa vez, já no leito de morte: "O maior defeito que encontrei no mundo foi a descrença."

- Fico feliz em saber que existem pessoas como você, que enxergam um pouquinho mais além. E lembre-se: o natal se faz todos os dias.

dezembro 01, 2011

No fim do mundo

Foto: Thad Roan - Bridgepix

Passei alguns dias no fim do mundo. Era uma pequena cidade litorânea, bela e misteriosa, localizada no extremo sul do mapa. Certo dia, fui conhecer o cais do porto daquela cidade, lembrando de uma frase de um velho amigo pescador: "É pelo porto que se conhece à fundo uma cidade." E lá vi barcos chegando e partindo, abarrotados de turistas como eu. Percebi que a maioria daquelas pessoas pareciam procurar muito mais do que uma simples experiência turística, mas uma experiência de vida. Por ali fiquei, degustando um alfajor comprado num café local, na companhia de um enigmático guardião do porto, que emprestava a sua simpatia num instrutivo bate-papo. Envolto numa capa de chuva, ele olhava atentamente para o movimento enquanto dizia: "A termo fim do mundo é muito comum por aqui. Percebe-se que todos nós temos uma obsessão pelo fim, como um prelúdio de um novo começo em nossas vidas. As pessoas vem para cá, porque encontram uma certa analogia com isso. Sentem-se encorajadas em recomeçar." Durante a conversa, não poderia deixar de olhar e me surpreender com o estado dinâmico e incomum do lugar. Em segundos, a paisagem adquiria outras nuanças, onde o sol e a chuva se alternavam numa velocidade impressionante. O barômetro local se agitava. Num piscar de olhos, os albatrozes e os pinguins austrais apareciam e desapareciam como por encanto. Num leve movimento de pescoço, via pessoas antes abatidas, se rejuvenecerem. O guardião do porto, percebendo as minhas observações, explicou: "As coisas por aqui possuem uma outra dinâmica. Aqui se vive no limiar do presente para o futuro, do velho para o novo e da ilusão para a realidade. Vive-se sempre na expectativa desta linha tênue em algum momento se partir. Até desconfio, pelos desdobramentos que presencio, que estamos numa troca constante com uma espécie de dimensão supra-física." Tudo isso estava sendo misterioso e até surreal, sem pé, nem cabeça. Mais ainda, porque ao me virar para dizer as horas para um turista que me perguntou, o guardião já não estava mais ali do meu lado, surpreendentemente.

novembro 25, 2011

novembro 15, 2011

Dias mais curtos


Estamos no ano de 2015. Os dias parecem cada vez mais curtos. Os relógios contam as 24 horas de sempre, mas parecem que tem apenas 12. Com isso, a minha rotina vem mudando drasticamente. Estou tomando o café da manhã, às pressas, com farelos caindo pelo chão no caminho do trabalho. As horas de trabalho passam voando e a labuta vem se tornando cada vez mais opressiva. Na hora do almoço, tenho que me contentar em apenas "beliscar" a comida, porque segundo o meu chefe, "o tempo urge". Aliás, uma alternativa prática e saudável que encontrei, foi carregar sempre comigo pequenas porções de castanhas, nozes e frutas secas para manter a qualidade da minha alimentação. O fim de tarde está logo ali e a noitinha não é mais a mesma. Abdiquei de algumas atividades prazeirosas, entre elas, as atividades físicas, antes praticadas religiosamente e que agora se tornaram esporádicas. Continuando assim, adoeço. Entretanto, não é só comigo. É com todos. Mas vamos nos adaptando. É possível que a geração futura esteja completamente adaptada. Talvez veremos pessoas mais gordinhas e com estaturas menores, porque a nossa espécie passou a dormir menos, diminuindo os níveis de leptina no organismo e assim provocando uma sensação de fome constante e uma desaceleração geral do metabolismo. Talvez o índice de natalidade vai diminuir, porque não haverá mais tempo e saco para perpetuar e cuidar de nossa espécie. Pode ser também, que forçosamente seremos obrigados a reduzir a nossa jornada de trabalho para balancear as outras atividades durante o dia e assim mantermos o mínimo de qualidade de vida. Ou também vai ver que essa anomalia do tempo é apenas um ciclo (o que eu acredito), e que o universo vai se encarregar de colocar o tempo em seu devido lugar. Mas só por hoje, ainda me vejo esgotado e insatisfeito com o meu dia.

novembro 08, 2011

Paradoxo

Foto: FMK Jahponeis

- Estou aqui para prestar a minha solidariedade com a tua condição. Em que posso ajudar?

- Em nada.

- Mas vejo que necessita de um local mais digno para morar. Falta aqui uma infra-estrutura adequada e sua moradia me parece muito frágil.

- Não se preocupe amigo. Não temos isso, mas em compensação temos uma comunidade com pessoas unidas, festivas e que se auxiliam mutuamente. Não queremos sair daqui.

O voluntário para causas sociais se surpreendeu com essa resposta. Muitas vezes, o que determina se um local é bom, não é a condição do local em si, mas o núcleo de pessoas que estão ali. Isso vale para inúmeras situações, como nessa experiência vivida pelo voluntário, que se viu obrigado a compreender esse paradoxo.

outubro 25, 2011

Moeda


Constatei que aquele meu dinheiro contado, que seria usado para fazer uma compra e para voltar de condução, não estava tão bem contado assim. "Acho que errei na conta antes de sair de casa." - pensei. Na verdade, faltava cinquenta centavos para completar a passagem de volta para casa naquele fim de noite na metrópole. Ali, nos arredores, já estava deserto e escuro. Estava longe de casa e sem telefone. Até poderia explicar a minha situação para o cobrador e quem sabe pular a catraca, pois era um jovenzinho ainda, mas algo dizia para seguir caminhando em direção ao ponto de ônibus, vasculhando a calçada e o meio-fio, os cruzamentos e o canteiro central. De repente, lá na frente, de maneira providencial e divina, acabei encontrando uma louvável moeda, exatamente no valor de cinquenta centavos. Como um transeunte inveterado, jamais tinha visto uma moeda brilhar tanto sob a luminosidade incandescente de um poste, e tão predisposta para servir alguém, porque esses objetos, em princípio inanimados, assim como tantos outros, quando tocados pela primeira vez logo após serem concebidos, adquirem um sopro de vida, com uma alma e muitos propósitos.

outubro 18, 2011

Caravana


A posição do sol indicava o meio-dia. Aquela caravana de bandeirantes fez uma pausa para o descanso e para discussão de novos rumos. Foi a partir daquele momento que a caravana se dividiu. Alguns deles queriam desbravar o clima quente e úmido das terras do norte, enquanto outros queriam desbravar a amenidade das terras do sul. Naquele tropel, um bandeirante franzino e até então calado, tornou-se grande, e fitando de cima para baixo seus companheiros, divergiu quanto aos rumos: "Aqueles que se propuserem a tomar outros rumos que não sejam para o leste, se perderão. Digo isso porque, para o oeste, onde o sol se põe, é onde os corações se fecham para a escuridão. Para o leste, onde o sol nasce, é onde os corações se encontram e se alegram." Aquele bandeirante, antes franzino, assemelhava-se a um jorro de luz preso num simples vaso de barro. Poucos levaram ele a sério, devido a frivolidade de muitos daqueles bandeirantes. "Aqueles que quiserem seguir para o leste, fiquem ao meu lado" - convidou. Apenas três bandeirantes argutos aceitaram o seu convite. E já no caminho para o leste, junto com os três bandeirantes, complementou: "Do que adianta uma terra desbravada com um coração emperdenido."

outubro 10, 2011

Recordação antiga


Dizia um velho amigo: "Privilegiado é aquele que se recorda de seu primeiro dia escolar." Curioso, fui remexer lá no escaninho de minhas recordações a mais antiga na linha do tempo.

Fui lá trás, o quanto pude, para encontrar-me num dia ensolarado, prostrado num canto, esperando que meus pais me levassem para o meu primeiro dia de aula na vida.

Não conseguia evitar a ansiedade pelo desconhecido. Nem mesmo aqueles personagens infantis estampados no meu uniforme e no meu material escolar eram capazes de amenizar aquela incômoda sensação.

Tinha visão, tato e olfato das coisas aparentemente banais e de seus pequenos detalhes, como fazem as crianças, e que vão se perdendo por negligência na vida adulta, como o universo lúdico das aventuras dos super-heróis em quadrinhos nas capas dos cadernos, a textura macia das borrachas e o cheiro dos potinhos de guache escolar.

E o que dizer do conteúdo das lancheiras? Naqueles tempos não se viam o artificialismo dos alimentos industrializados, apenas a simplicidade das amoras e das jaboticabas que davam e se pegavam aos montes por quintais afora.

Assim fui, com a segurança de meus pais e com a confiança inabalável para o grande acontecimento da vida - o primeiro dia de aula.

setembro 24, 2011

Imaginações


Os olhares daquela bela moça deixou-lhe extasiado. Ela superava em muito o padrão de beleza que ele impôs para si. Muitas vezes chegava a duvidar daqueles olhares se perguntando: "Será que é comigo mesmo?" Na real, sentiu-se meio abobado, como um jovem nos primeiros amores. Levou a imaginar em estar numa noite especial, num jantar com ela, conversando animadamente, trocando confissões e gentilezas, beijos e carícias. Foi assim por vários dias, na ternura daqueles olhares e na bestialidade de suas imaginações. "Isso não pode estar acontecendo comigo" - afirmava. Acabaram se conhecendo ao meio-dia de uma sexta-feira. Engataram um agradável almoço, talvez como um aperitivo de um fim de semana promissor. Lá pelas tantas, na iguaria de sobremesa, ele tomou coragem e disse: "Reparei nos seus olhares para mim." E antes dele dizer mais alguma coisa, ela disse inocentemente, avesso as reais intenções dele: "É que você se parece demais com o meu irmão falecido. Eu tinha muito apreço por ele." Para decepção dele, os olhares daquela moça não eram um flerte. Apenas uma saudade.

setembro 17, 2011

Atentado ao ciúme

Foto: LonelyPierot
 
A companheira dele implicava demais. O motivo da sua implicância estava no fato dele não sentir nenhum ciúme dela. Ela chegou ao ponto de frequentar ambientes exclusivamente masculinos para chamar a sua atenção. Até que um dia ela se cansou e resolveu ir embora. Dias depois ele foi surpreendido com uma intimação. Que comparecesse num endereço citado para dar explicações sobre uma denúncia. E lá ficou boquiaberto ao descobrir que foi enquadrado em algo insólito - atentado ao ciúme. "Só poderia ter sido ela. Não compreendeu o meu jeito de amá-la" - esbravejou. Bem, ele sabia de que no mundo, de tudo se inventa, mas ele, com a sua maneira de amar um tanto excêntrico para os padrões estabelecidos, mas puro, verdadeiro e preenchido de maturidade, jamais poderia imaginar estar numa sala nauseabunda, de frente para uma autoridade, dando explicações de ordem íntima, sujeito a desembolsar uma quantia considerável para fiança e provavelmente condenado a prestar longos serviços comunitários.

setembro 10, 2011

A razão


- Não acho legal te ver pela rua conversando com os acometidos pela loucura.

- Porque não?

- Porque é uma perda de tempo.

- Por acaso, conversar com alguns dotados de razão não seria uma perda de tempo?

- Acredito que não.

- Você já reparou que muitos desses acometidos pela loucura se expressam no sentido alegórico? É só prestar atenção. Muitos de seus "supostos" absurdos são cheios de conteúdo. Parecem fazer algum sentido.

- Será?

- Sim. Entendo que a razão pode ter adormecido nessas pessoas, mas ocasionalmente ela desperta para mostrar que jamais ela morre.

setembro 02, 2011

Percepções

Foto: Ben McDarmont

Cheguei a dobrar os meus joelhos para tocar e compreender a textura daquela areia finíssima, cujos grãos se esvaneciam delicados e resplandecentes por entre os meus dedos. Isso me levou a desconfiar que existem coisas ainda mais deslumbrantes sob as minhas pegadas. O vento que soprava, contornava com toda a sua intensidade o meu corpo rijo, que porventura também costuma endireitar e curar àqueles cujos membros de seus corpos se encontram imperfeitos. Tinha o som do oceano, ainda que imutável e indiferente, foi capaz de afirmar em meus ouvidos que o silêncio não é necessariamente a ausência do som. Ainda, algo dentro de mim, como um sexto sentido, mostrava que por detrás da tempestade que se aproxima lá fora no oceano, descortina uma agradável surpresa.

agosto 23, 2011

agosto 16, 2011

Requintes da morte


Uma dezena de pessoas choravam pelo ancião falecido. Ordinariamente, poderia ser mais um velório, no entanto, este atentava para uma curiosa particularidade - a feição de contentamento dele. Fazia-se notar em seu semblante, um leve e lascivo sorriso de canto, próprio daqueles que faleceram satisfeitos com a ocasião. E realmente foi. Sua coronária não resistiu às investidas de uma intrépida e ardente jovem de vinte e poucos anos. Ninguém percebeu esse estado de contentamento cristalino, porque a atmosfera do pesar e do pranto causou um severo embotamento dos sentidos de todos. De pobre coitado ele não tinha nada, afinal, quem não gostaria de falecer de tal maneira semelhante e abrupta? Um comentário pós-velório foi dito por um distinto familiar para outro: "De uns tempos para cá, tenho observado os requintes dessa engenhosa senhora chamada Morte. Surpreendo-me com suas maneiras originais e recreativas de promover a passagem para o outro lado. Todavia, até os nossos queridos e amáveis animais de estimação empenham a seu favor, antevendo e tocando os locais do corpo dos adoecidos onde as chagas vão aparecer, com seus olhos cheios de fraternidade perante a morte iminente." E o outro familiar completou: "Decerto, isto tem uma explicação plausível. Talvez seja um forma dela nos dizer para que não a levemos tão à sério, porque ela se assemelha a uma leve e jubilosa mulher e não uma velha facínora e carcomida."

agosto 09, 2011

Minha carranca


Ah, minha carranca. Salvou-me por inúmeras vezes das armadilhas em meu caminho. Seja por terra, seja por água, de boiúna à boitatá, não há imaginário sobrenatural que me venha intimidar. Repreendeu, amiúde, os meus impulsos mais agudos por rios, vilas, aldeias e outras localidades que poderiam representar um perigo para a minha integridade. Dos bandoleiros, dos insidiadores e das magias negras. Avisou-me dos perigos naturais das selvas, dos animais e de águas desconhecidas. Só não tive a orientação acerca das mulheres nas quais me envolvi. Para isso, não existe uma fórmula que possa combater a causa, somente os efeitos. Quantas paixões vividas sob o luar e que foram enterradas ali mesmo, na areia das praias de água doce... De fato, é das mulheres que eu devo temer.

julho 23, 2011

Barco de papel


Meu barco de papel
Coloquei nele algumas folhas secas da estação
e mais alguns galhos mirrados
Para lançar e se precipitar pelo curso d'água
Algo assim,
simples, leve e lírico
Como haveríamos de ser
Lá se foi o meu destemido barco
Rio abaixo
Margeando a mata ciliar

julho 10, 2011

Uma família singular

Pintura / Autor: Federico Uribe
Naquela graciosa casa, morava uma família singular, que vivia para as artes e para os modos alternativos de vida. Lá morava um artista inquieto com a sua nostálgica esposa. Ela ainda vivia como nos tempos pretéritos. Vestia estampas com motivos florais e arrastava seu par de sandálias com miçangas. Tinham uma filha, ainda nova e já mergulhada nos costumes atemporais de sua mãe. Ela tinha o hábito de decorar seu cabelo com uma flor de margarida e costumava degustar balinhas de gengibre. O pai dedicava a ela uma atenção
especial, apesar dela ter vindo para o mundo sem ter sido planejado, porque o individualismo do pai como artista se fazia notar com a opinião de que filhos rompem todo o processo criativo.

Ele se vangloriava pela suas pinturas e seu método não-convencional para avaliá-las. Consistia em expor suas telas acabadas na varanda da casa para apreciação dos pequenos pássaros e insetos. Se os mesmos bicassem as frutas e as flores retratadas nas telas achando que fossem reais, elas estariam aprovadas. "Não há reconhecimento melhor do que da própria natureza" - orgulhava disso. Muitas vezes, sua genialidade era ofuscada por crises existenciais típico dos gênios mal compreendidos, que o fazia adentrar por períodos longos de abstinência criativa. Então, começava a dedicar, como terapia, a melhorias de um sistema de compostagem que passou a desenvolver nos fundos da casa, mas que ainda só atraía ratos e baratas, causando-lhe irritação.

Certo dia, a florzinha de sua filha, num lampejo de sabedoria, e de maneira habilidosa e meiga, comentou que a razão de todo o seu desequilíbrio emocional, era a sua busca descabida de uma perfeição que somente existe no rosto dos anjos, o que provocava uma espécie de bloqueio criativo. Esse comentário pontual, deixou-lhe pasmo pela maturidade. Numa conversa com a sua esposa, chegou a comentar com ela tal feito, e disse - "pudera os adultos ouvirem por um só minuto as crianças".

Assim, dia após dia, com a ajuda integral e recorrente de sua filha, mais do que da própria esposa, ele foi procurando lidar com seus descontroles. Quiçá, algum dia conseguisse por breves instantes libertar de sua genialidade que tanto o aflige.

julho 02, 2011

Diálogo de guerra


Aquele suntuoso exército cercou o povo humilde. Naqueles tempos antigos, a truculência suplantava o diálogo na aquisição de terras. O contraste era grande. De um lado, um maquinário de guerra com homens bem treinados. Do outro, um povo pacífico, que empregava armas somente para caça. No entanto, houve um diálogo. O líder da plebe prestou-se à falar, ao mesmo tempo que, por entre cabeças de seu povo, surge num enrolado de panos carregado por uma singela mulher, um notável bebê, não como forma de escudo, mas de misericórdia. O caudilho daquele exército viu aquele bebê com reverência, porque refletia o brilho dos raios do sol daquela resplandescente manhã, tal como santo, muito mais do que todos os componentes metálicos do seu maquinário de guerra. "Onde há uma criança, não há conflito, muito menos guerra" - disse o líder da plebe. Com isso o caudilho num gesto, fez baixar sessenta bocas de canhão, desengatar trezentas baionetas e guardar cerca de oitocentos espadins.

junho 14, 2011

Girassóis


Da noite para o dia,
passei de homem para girassol
Agora estou aqui,
num bucólico campo de girassóis

Não se trata de um sonho,
nem de um óleo sobre tela
Aqui sou igual a todos
e todos são iguais a mim

Como homem,
andava cabisbaixo
Como girassol,
o meu instinto é de olhar sempre para o alto,
em busca do astro-rei
Talvez esse seja o motivo por estar aqui

Aqui há o respeito mútuo pelo seu espaço
Há uma igualdade de condições
e o suprimento das necessidades básicas

Os insetos que vem me visitar são muito gentis
Até que estou gostando
Desculpe homens,
vou ficar por aqui mesmo.

junho 01, 2011

Casa de roça


Acordei às cinco
O sol nem raiou,
mas um sabiá
e meu galo põem-se a cantar
A fumaça que sai pela chaminé anuncia - acordei

Na mesa,
café e bolo de milho verde
Um café reforçado,
porque será um dia de muito trabalho

Trabalhar a terra,
cortar e empilhar lenha,
ordenhar vacas e cabras

Meus filhos vivem felizes,
correndo pra lá e pra cá,
com os pés descalços
e seus rostinhos corados

Alguns pensam que sou pobre
Sou o mais rico de todos
Tenho terra boa,
fartura de aipim
e um céu com muito mais estrelas

maio 02, 2011

A senha


Logo ali, havia uma longa fila.
Uma fila que dava numa casa antiga, sem nome, sem número.
Entrei nesta fila. Perguntei para quem estava na minha frente:
- Do que se trata?
E a pessoa respondeu:
- Vão nos dar uma senha.
Ali fiquei, numa fila de pessoas que mal falavam, também aguardando a tal senha.
E a fila aumentava. Já dobrava várias esquinas.
Enfrentei o sol, o vento, o calor e até mesmo o frio.
Lá se foi uma tarde inteira e uma boa parte da noite.
Perdi compromissos importantes de trabalho e a festinha de aniversário de meu filho.
Houve até um tumulto, um bate-boca lá no início da fila, sem razão aparente, que do nada iniciou e para o nada terminou.
Somente no fim da noite, uma pessoa me entregou uma senha e pediu para que eu voltasse daqui três dias no mesmo horário.
Apenas peguei a senha e nada perguntei.
E a fila foi se desmanchando até desaparecer, como se nada tivesse acontecido ali.
Já de volta para casa, minha mulher, muito nervosa e com o nosso filho chorando, perguntou:
- Porque a demora?
Então respondi:
- Fiquei na fila para pegar a senha.
E ela:
- Que senha!?
Envergonhado, respondi:
- Não sei.

abril 28, 2011

Amar é inevitável


Uma potranca, como ele definia vulgarmente uma jovem vizinha de longos cabelos pretos e de pele branquinha como os vestidos das noivas puritanas, que inexperiente nas questões amorosas, viu adentrar de supetão seu respectivo lar, num berreiro de dar dó, consolada pelo seus entes queridos, por ver seu homem que lhe confiou toda a sua felicidade, surpreendentemente deixá-la e tomar o rumo das algazarras da infidelidade e das bebedeiras. Para ele, um sarrista e observador nato das circunstâncias que lhe avizinha, foi mais um banquete para ridicularizar e desdenhar daqueles que se entregam aos amores desmedidos. Porém o destino, num xeque-mate, também haveria de colocá-lo à prova, tratando de colocar em seu caminho, uma potranca, uma temperamental mulher, para se apaixonar e vivenciar as oscilações do amor.

abril 18, 2011

No divã do taxi

Foto: Ben Fredericson

Abriu a porta e se lançou para o interior do veículo. Instantaneamente, num fragmento de lembrança, ouviu certa vez de sua amiga - "Os condutores de taxi tem opiniões e respostas inteligentes para tudo. Até parece que são iniciados no desvendar dos mistérios humanos." Entre o revezar de cores dos semáforos e da paralisia das esquinas lotadas, conversaram temas variados, até mesmo de cunho enciclopédico, e que veio a culminar na confidência de um desvio comportamental - o hábito de mentir. Mesmo antes de chegar ao seu destino, a passageira ouviu de seu condutor - "Mentiras em excesso tornam-se verdades. Talvez esta seja a mais clássica das metamorfoses." Dias e mais dias isso foi reverberando positivamente na sua consciência para a correção desse seu incômodo desvio. Surpreendente, para alguém que jurava que um condutor de taxi fosse um neurastênico em potencial.

abril 09, 2011

abril 01, 2011

Dia de escuridão

Foto: Felipe Tonello

Primeiras horas de um novo dia. Ainda escuro, entretanto, algo de estranho e inverossímil se sucede. À julgar pelas horas, o sol já deveria ter iniciado sua labuta. Ele resolveu estender o seu descanso. Parecia estar cansado de nossas maledicências a respeito de seus raios. Uma engenharia promoveu uma acareação com um abismo de escuridão que mal conhecíamos. O interessante era notar os estados emotivos e até catalépticos resultantes. Via-se uma grande parcela de desesperados, baseados na crença maçante e nebulosa mais antiga do que o próprio homem - a do fim do mundo. Mas existiam aqueles que mantiveram a calma, a dignidade e o entendimento de que todo descanso se encerra. Também era interessante notar o contentamento de alguns, como os fabricantes de velas artesanais e as lojinhas de artigos religiosos, que fervilhavam uma nova clientela, que pouco ou nada tinham de costumes religiosos, onde antes era frequentado somente por mansas e devotadas senhoras com terçinhos na mão. Nem foi preciso transpor a barreira do meio-dia para que toda essa amálgama se reunisse nas praças e nos centros populares de compras para se perguntarem - o que está havendo? Porque somente os mais sensatos poderiam responder que todo trabalhador é digno de férias.

março 25, 2011

Tempo estático


Flutuava sobre as horas corridas,
ao invés de deixar-me oprimir pelo jugo delas.
Paralisava os meus relógios quando achava conveniente
(inclusive meu cinquentenário relógio de parede),
numa resposta rasteira aos burburinhos de que os dias passam mais rápidos.
Porque não há nada mais pessoal do que os ponteiros do tempo.

março 12, 2011

Sujeiras


Pó e sujeiras pela casa
Pego a vassoura
Vou pro quarto
varro

Vou pra sala
varro
Vou pra cozinha
varro

Todos os cômodos estão limpos.
Somente agora,
após quinze anos morando aqui,
percebi varrendo
que as paredes estão fora do esquadro.

Vou pro quintal
cheio de sujeira das queimadas
Agosto é sempre assim
varro

após cinco minutos
mais sujeiras
varro

de cinco em cinco
durante a tarde inteira
varro

não aguento mais
vou pegar dois baldes cheios d`água
vou apagar essa maldita queimada
deve ser uma queimadinha,
no terreno baldio ao lado.

Era um grande incêndio
consumindo os arredores da cidade
em breve, nossas casas.
Ninguém me avisou.

março 11, 2011

março 04, 2011

A silhueta

Imagem: OrangeUtan

Uma silhueta de felino estava em guarda sobre o muro. Para não se ater a uma ideia vaga, fechou e abriu seus olhos algumas vezes para constatar que não se tratava de uma mera imagem fantasmagórica das noites de antanho. Tratava-se de algo com um rabo altivo, uma maquininha de ronronar e um par de olhos com pupilas verticais, que brilhavam feito faróis, não somente para vasculhar as lápides ou para guiar e dar uma sobrevida para os moribundos da noite lúgubre, mas também para antecipar aos flagrantes daqueles que agem perversamente pela surdina, como ele. Aquele olhar intimidador na contraluz da luminescência lunar, provocou-lhe um estado de desassossego, um rasgo de punhal na sua vã agudeza de espírito, como era de se esperar, já que ordinariamente o malfazejo desmascarado jura com a venda nos olhos e com as disposições do ego, de que os malefícios são ocultos no silêncio das horas altas.

fevereiro 25, 2011

Insípidos

Imagem: vida de vidro

O trem já estava na estação. Se despediu da senhora que conheceu apenas no minuto anterior e que lhe desejou uma boa viagem. Entrou no trem com o propósito de buscar uma melhor sorte em outro rincão, mas logo no início da viagem foi acometido de uma estranha sensação. Fitando o ambiente do vagão, atentou na ausência da vivacidade na aura dos viajantes, na ausência do brilho e da contração de suas pupilas em resposta à luz do dia, na ausência de cores vivas em suas indumentárias e por fim, na ausência da chama da motivação que levantasse suas posturas cabisbaixas. Não satisfeito, atentou para si e percebeu que assemelhava a eles - um acumulado de pessoas insípidas. Por onde o trem passava, as janelas denunciavam o monocromo das paisagens. Não se via o verde das florestas, o dourado dos raios de sol e o azul celestino. Apenas matizes do cinza. Certos momentos o trem serpenteava vilas inóspitas, onde homens mortificados aravam a terra pobre, o gado magro se alimentava em pastos mirrados e mães cansadas seguravam seus filhos esquálidos. Por toda viagem se acostumou com a mesmice, com a falta de diálogo, com a ociosidade forçada, com o ar nauseabundo do vagão e com o molestar de uma mosca varejeira. Houve um momento para todos naquele trem, tão sutil e não menos derradeiro, que selou definitivamente seus destinos - a transcendência do costume para a acomodação. Assim, após um dia de viagem, certos no desembarque numa nova terra de oportunidades, o trem findou sua viagem naquele mesmo ponto de partida, para incredulidade e desilusão de todos. Era como se a partida e a chegada, o início e o fim, ocupassem o mesmo lugar, refutando uma lei da propriedade da matéria, em que dois corpos não ocupam o mesmo espaço. Foi um trem que andou em círculo, uma alegoria, sujeito ao padrão de comportamento de seus ocupantes, que nada tinham de ousadia e da quebra de paradigmas.

fevereiro 18, 2011

A estrepolia de um anjo


Houve um equívoco na inenarrável hoste celeste. Um anjo, membro do conselho cármico, burlou todas as premissas responsáveis pelos destinos humanos, invertendo-as completamente. Centenas de bons humanos foram transportados para o umbral e outras centenas de maus humanos para o paraíso. Este ato repercutiu por diversos níveis celestiais com extrema dramaticidade, tamanho seu ineditismo. Não se sabe as razões pelas quais levaram este anjo a cometer o ato, no entanto, algumas línguas próximas disseram que foi um processo experimental para avaliar e se divertir com os níveis de pretensão dos selecionados. A lógica funcionou. Na repúdia do enxofre, muitos reclamaram de seus direitos por condições dignas pós-morte, com justificativas e pasmem, com recibos de contribuições financeiras para casas de caridade. Outros, após uma vida sem plantar uma única bem-aventurança, colheram frutos alheios do melaço do paraíso em meio a bromélias e lírios da paz. Um conclave com a diretoria executiva do conselho tomou as rédeas do caso e primeiramente levou a julgamento e condenou o buliçoso anjo para níveis inferiores da criação, com honrarias de anjo caído, por ato inconstitucional pela violação dos direitos civis, desconhecendo os fundamentos da defesa do réu, que alegava que os anjos ainda possuíam em seus DNAs, inevitáveis resquícios das travessuras humanas. Dois anjos portadores da criação que estavam próximos ao tribunal, no átrio entrecortado por imponentes colunas de estilo grego com capitéis jônicos, dialogavam baseados num tema de um conhecido ditado popular humano - "seria cômico se não fosse trágico".

fevereiro 12, 2011

fevereiro 07, 2011

O homem do deserto

Pintura: homem do deserto / Autor: R. Schultz

Destemido peregrino no páramo
Macerado pelo sol e pelas contínuas batalhas
Sempre passaste com maestria pelas ciladas do deserto
Conquistaste o respeito e o júbilo das tribos nômades e dos sorrateiros deuses das tempestades de areia
Se agora tu estás desnorteado
Não te acanhes esta noite na solidão taciturna
Olhe para cima
Lá estão os benevolentes diamantes para lhe guiar
São inúmeros para contar
Sírius, Vega, Denébola, Albireo...
Guerreiro, fique atento
Um feixe de luz parte delas
Para você captar.

fevereiro 02, 2011

Nostalgia reprimida


Sentou na mureta com suas pernas ao ar e a fronte para o mar, se refrescando com os últimos goles de água e sentindo o alvoroço de homens, mulheres, crianças e animais tateando suas costas. Não olhou, nem se importou. Percebeu que sua cabeça movia para trás até certo ponto e notou que a Criação foi caprichosa nisso. Olhar para trás? Molestar o passado? Para quê? Ao lado e próximo a ele, aos pares ou não, pessoas também ali sentadas pareciam remoer e regurgitar seus traços de nostalgia. Um observador de fora ao ver essas prostrações poderia pensar - "A nostalgia enredou e venceu nestes homens". De maneira alguma. Com ele o processo de assimilação era diferente. A perspicácia de seu olhar percorria pelo trôpego horizonte do oceano à perder de vista, e miragens, tão reais quanto os grãos de areia sob seus pés, apareciam com uma clareza espantosa, como um filme mostrando cenas de um futuro ditoso e promissor. O vento proveniente do mar, ora produzia, ora dissipava espumas distantes, como se os infortúnios seguissem o mesmo curso. Um leve perfume se misturava com essa mesma brisa marítima, que era a fragrância do amor, num ensaio do que virá, galhofando através de um mistério o gênero desse amor. Até mesmo a natureza avesso a bajulações, honrou seu espírito com mensagens subliminares. Não havia sequer na face da Terra tal homem naquele momento.

janeiro 24, 2011

Desarme de impropérios


Nas massas sociais, aquele homem alto e corpulento se destacava. Não era somente por isso, porque costumeiramente as pessoas se deixam levar pela superficialidade dos olhos e não pela profundidade do coração. Pois assim se destacava pela exposição de outros atributos, como da sobriedade e simpatia. Sua vida se resumia numa equação matemática muito simples - gentileza gera gentileza - como dizia um profeta do povo. Seus atributos era de realeza. Costumava dizer que "para ser rei, bastava muito pouco". Ao contrário das pessoas de revide, seu tato pacífico se manifestava pela habilidade de ser o freio dos estúpidos e um combatente ferrenho dos impropérios do mau humor, da frieza e da soberba. Em seu cotidiano, seu bom humor desarmava os mau humorados da manhã. Sua receptividade desarmava os frios de coração e sua humildade desarmava a soberba dos privilegiados. É o homem da maturidade e um exemplo ambulante dos desvairados. A pedra angular dos incautos.

janeiro 16, 2011

janeiro 02, 2011

Imersos na decadência


Após um longo período sabático, reencontrou suas afeições imersos na decadência. Primeiro, seu velho amigo - antes um incorruptível segundo suas deduções - e agora, após largos anos em seu ofício administrativo, adquiriu olhos de raposa, se beneficiando em completo destemor de negócios ilícitos na imoralidade da aquisição do dinheiro alheio, numa surpreendente naturalidade. Sua ex-namorada - donzela de intelecto e recatada, na qual viveu em regime de concubinato - reencontrou numa estranha vestimenta numa esquina do desalento e do comodismo, cercada por olhares de homens inescrupulosos. A decadência era tão proeminente, que viu pela calçada do mercado a sua cadela de outrora, que tempos atrás fugiu de seu remanso amoroso, curiosa em conhecer a malandragem das ruas, e que de fiel depositária de suas confidências, viu se transformar numa cadela mulambenta de olhos famintos, que nem lhe reconheceu como seu antigo dono, imerso num cio primitivo à dobrar a esquina perseguida por um macho. No fim das contas, assustado com o que vira, sentou-se ao meio-fio e engoliu seco, e tomou consciência da dificuldade dos homens e dos animais de dar dois passos para frente e a tremenda facilidade de dar dois passos para atrás.

janeiro 01, 2011

Furtando a magia infantil


O pai diz - "Minha filha, a estrela D´Alva apareceu no céu e tão logo vai se esconder por detrás do outeiro. Vai lá, pega ela e traz para o papai."
O furtador da magia infantil se dirige a criança e diz - "Não vá, está a milhares de quilômetros."
O pai diz - "As nuvens se transformaram em belos rostos e também em graciosos torreames."
O furtador da magia infantil se dirige a criança e diz - "Bobagem. É fruto da imaginação de seu pai."
E a filha desconvicta murcha como uma rosa que há muito não se rega.
A veracidade da "fantasia" é proporcional a sua grandeza. Quando se acredita em algo na brisa da inocência, tudo é possível. O furtador da magia infantil ao furtar da criança, construiu seu próprio pesadelo, porque quando uma falange de personagens das estórias infantis se reúnem para tomar as dores de uma criança, a impiedade grassa.