janeiro 02, 2011

Imersos na decadência


Após um longo período sabático, reencontrou suas afeições imersos na decadência. Primeiro, seu velho amigo - antes um incorruptível segundo suas deduções - e agora, após largos anos em seu ofício administrativo, adquiriu olhos de raposa, se beneficiando em completo destemor de negócios ilícitos na imoralidade da aquisição do dinheiro alheio, numa surpreendente naturalidade. Sua ex-namorada - donzela de intelecto e recatada, na qual viveu em regime de concubinato - reencontrou numa estranha vestimenta numa esquina do desalento e do comodismo, cercada por olhares de homens inescrupulosos. A decadência era tão proeminente, que viu pela calçada do mercado a sua cadela de outrora, que tempos atrás fugiu de seu remanso amoroso, curiosa em conhecer a malandragem das ruas, e que de fiel depositária de suas confidências, viu se transformar numa cadela mulambenta de olhos famintos, que nem lhe reconheceu como seu antigo dono, imerso num cio primitivo à dobrar a esquina perseguida por um macho. No fim das contas, assustado com o que vira, sentou-se ao meio-fio e engoliu seco, e tomou consciência da dificuldade dos homens e dos animais de dar dois passos para frente e a tremenda facilidade de dar dois passos para atrás.

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