outubro 25, 2011

Moeda


Constatei que aquele meu dinheiro contado, que seria usado para fazer uma compra e para voltar de condução, não estava tão bem contado assim. "Acho que errei na conta antes de sair de casa." - pensei. Na verdade, faltava cinquenta centavos para completar a passagem de volta para casa naquele fim de noite na metrópole. Ali, nos arredores, já estava deserto e escuro. Estava longe de casa e sem telefone. Até poderia explicar a minha situação para o cobrador e quem sabe pular a catraca, pois era um jovenzinho ainda, mas algo dizia para seguir caminhando em direção ao ponto de ônibus, vasculhando a calçada e o meio-fio, os cruzamentos e o canteiro central. De repente, lá na frente, de maneira providencial e divina, acabei encontrando uma louvável moeda, exatamente no valor de cinquenta centavos. Como um transeunte inveterado, jamais tinha visto uma moeda brilhar tanto sob a luminosidade incandescente de um poste, e tão predisposta para servir alguém, porque esses objetos, em princípio inanimados, assim como tantos outros, quando tocados pela primeira vez logo após serem concebidos, adquirem um sopro de vida, com uma alma e muitos propósitos.

outubro 18, 2011

Caravana


A posição do sol indicava o meio-dia. Aquela caravana de bandeirantes fez uma pausa para o descanso e para discussão de novos rumos. Foi a partir daquele momento que a caravana se dividiu. Alguns deles queriam desbravar o clima quente e úmido das terras do norte, enquanto outros queriam desbravar a amenidade das terras do sul. Naquele tropel, um bandeirante franzino e até então calado, tornou-se grande, e fitando de cima para baixo seus companheiros, divergiu quanto aos rumos: "Aqueles que se propuserem a tomar outros rumos que não sejam para o leste, se perderão. Digo isso porque, para o oeste, onde o sol se põe, é onde os corações se fecham para a escuridão. Para o leste, onde o sol nasce, é onde os corações se encontram e se alegram." Aquele bandeirante, antes franzino, assemelhava-se a um jorro de luz preso num simples vaso de barro. Poucos levaram ele a sério, devido a frivolidade de muitos daqueles bandeirantes. "Aqueles que quiserem seguir para o leste, fiquem ao meu lado" - convidou. Apenas três bandeirantes argutos aceitaram o seu convite. E já no caminho para o leste, junto com os três bandeirantes, complementou: "Do que adianta uma terra desbravada com um coração emperdenido."

outubro 10, 2011

Recordação antiga


Dizia um velho amigo: "Privilegiado é aquele que se recorda de seu primeiro dia escolar." Curioso, fui remexer lá no escaninho de minhas recordações a mais antiga na linha do tempo.

Fui lá trás, o quanto pude, para encontrar-me num dia ensolarado, prostrado num canto, esperando que meus pais me levassem para o meu primeiro dia de aula na vida.

Não conseguia evitar a ansiedade pelo desconhecido. Nem mesmo aqueles personagens infantis estampados no meu uniforme e no meu material escolar eram capazes de amenizar aquela incômoda sensação.

Tinha visão, tato e olfato das coisas aparentemente banais e de seus pequenos detalhes, como fazem as crianças, e que vão se perdendo por negligência na vida adulta, como o universo lúdico das aventuras dos super-heróis em quadrinhos nas capas dos cadernos, a textura macia das borrachas e o cheiro dos potinhos de guache escolar.

E o que dizer do conteúdo das lancheiras? Naqueles tempos não se viam o artificialismo dos alimentos industrializados, apenas a simplicidade das amoras e das jaboticabas que davam e se pegavam aos montes por quintais afora.

Assim fui, com a segurança de meus pais e com a confiança inabalável para o grande acontecimento da vida - o primeiro dia de aula.