Contos minimalistas
maio 30, 2017
Envelhecimento
abril 28, 2017
março 30, 2017
Tinta amarela
Pintura: Fernanda Brenner
Ela estava disposta em tingir de amarelo tudo o que julgava sem graça, sem vida e triste.
Por vezes, sentava em algum lugar.
Poderia ser uma pracinha abandonada, um viaduto antigo e mal conservado.
Sobretudo em lugares urbanos.
Ao sentar apenas contemplava a paisagem.
E nas paisagens acinzentadas onde predominava a feiura e a tristeza, não hesitava em tingir de amarelo.
Tingia os becos por onde passaram os usuários de drogas.
Nas calçadas esburacadas.
No meio-fio, onde as pessoas acumulavam lixo.
Nos pontos de ônibus.
Nas ruas de comércio popular.
Até mesmo foi capaz de tingir de amarelo os conservadores uniformes da Polícia Militar que encontrava pela frente.
Enfim, inúmeras coisas e lugares.
Afinal, para ela o amarelo é vida.
É a cor da beleza e da alegria.
janeiro 13, 2017
O Samurai
Na Província de Harima, havia um jovem que deixou o seu vilarejo para viajar pelo caminho de Shugyosha. Esse caminho era conhecido por lapidar a alma dos futuros guerreiros. Os aspirantes eram submetidos à inúmeras provas impostas pela natureza do local através dos devas e dos espíritos dos antigos samurais. As provas testavam a capacidade dos aspirantes a lidar com situações que exigiam coragem, paciência, retidão e resiliência. O espírito mais perspicaz interpretava como provas de amor, não somente de resistência.
Esse jovem era conhecido como Furuhashi e vinha dos clã Tokugawa. Seu objetivo era se tornar um samurai. Ao longo do caminho a sua alma foi sendo lapidada, e no teste derradeiro, recusou acertadamente uma espécie de certificado de conclusão, argumentando que o treinamento já estava concluído e que o homem desapegado dispensa certificações.
No ano seguinte ele entrou no serviço de uma milícia particular onde ajudou na construção de fortalezas, confecção de arcos e flechas e no aperfeiçoamento de técnicas de esgrima. Nesse meio tempo também dedicou ao intelecto, as artes plásticas e a caligrafia. Toda esse leque de habilidades era apenas um complemento para o guerreiro que se dedicou acima de tudo aos valores espirituais.
Com o passar dos anos participou de vários duelos onde saiu vitorioso, o que chamou a atenção de um samurai importante na época, que se propôs em aperfeiçoar ainda mais sua técnica refinada.
Assim, após um longo período de aprendizado, se tornou um exímio samurai. Suas habilidades eram tão notáveis que algumas línguas já diziam que o aprendiz havia se igualado ao mestre.
A notícia correu os vilarejos e o exímio samurai passou a ser admirado e ao mesmo tempo invejado.
A partir daí conheceu à fundo as imperfeições humanas, mesmo entre aquelas pessoas mais próximas que se diziam praticar o código de ética e o bushido, o código de honra.
Isso foi agitando o seu interior e provocando uma série de desgostos, porque as pessoas, incluindo seus amigos, se aproximavam dele de uma outra forma, sempre na conveniência e não na amizade sincera, devido a sua posição mais destacada.
Com isso percebeu que não era uma pessoa tão forte assim, porque se deixava abater com o lado mais mesquinho das pessoas e que tudo que havia aprendido, ainda não era suficiente para mergulhar na paz profunda.
Então, certo dia tomou uma decisão. Passou a ser um eremita, vivendo numa floresta com várias grutas, onde nelas se dedicava em escrever acerca das coisas belas da vida, dos aprendizados tirados da natureza e da inabilidade do ser humano em lidar com suas porções mais escuras.
Na velhice, antes de morrer de causas naturais, entregou e confiou todo esse precioso material para o seu irmão, onde anos depois, o manuscrito foi reconhecido como uma grande e inspiradora obra literária japonesa.
dezembro 04, 2016
novembro 07, 2016
A razão da vida
Diálogo entre dois amigos com o oceano em seu derredor.
- Qual a razão da vida para você?
- Ora, nenhuma. A razão para vivermos está na ausência de uma razão.
- Desculpe, mas permita-me discordar de sua opinião. A sua resposta me parece vazia e inconsistente. Acredito que a vida tem muitas razões. Uma delas é nos aprimorarmos como pessoa através de uma reforma moral e íntima.
O amigo da ausência de uma razão ficou pensativo. Talvez essa resposta começou a fermentar algo profundo em seu interior.
outubro 13, 2016
Destruição
Pintura: A Ventania (óleo sobre tela) / Autor: Anita Malfatti
Quando as nuvens mais escuras baixaram, as pessoas se recolheram em suas casas. Os raios e as primeiras gotas de chuva começaram a cair. Até então parecia apenas mais uma chuva de verão. Porém, aquelas gotas de chuva foram se tornando cada vez mais grossas e em pouco tempo se transformaram em pedras de gelo enormes. Elas quicavam nos telhados sem dó nem piedade e atingia com força a lataria dos carros estacionados na rua, para o lamento de seus respectivos donos. O vento se tornou tão forte que algumas árvores se contorciam e perdiam a beleza de seus galhos e o acolhimento de seus ninhos. O uivar do vento atingia o ouvido das pessoas e dos animais com um viés apocalíptico. A energia do bairro caiu instantaneamente. No quintal da casa, o fluxo d'água se tornava intenso até chegar ao ponto em que o ralo não dava vazão para tanta água devido ao acúmulo do granizo. O jardim ficou todo branco e as plantas arrasadas. Num determinado momento a tempestade foi se amenizando para mostrar a real dimensão dos estragos. A garagem e o quintal era um misto de pedras de gelo, folhas e galhos de árvores. Para espanto, havia também muitos passarinhos mortos de bico vermelho e peninhas de cor cinza, que frágeis, sucumbiram diante da tempestade. Nesta casa havia um recém-nascido de apenas um mês de idade, que atravessou a agitação inteira num sono profundo dos anjos. Acordado pelos pais em seu gracioso berço, foram verificar estupefatos o estrago deixado pela tempestade. Lá fora, com o amamento da mãe, pôde abrir os seus olhos e ter o contato pela primeira vez com a morte e a destruição. A natureza havia cumprido o seu papel.
setembro 20, 2016
Curiosidade mórbida
Caminhava pelo centro da cidade até que próximo de uma estação de metrô havia uma concentração de pessoas assistindo o resgate de uma vítima de atropelamento. A curiosidade era tanta que a própria vítima deveria estar constrangida e oprimida por chamar tanta atenção e obstruir o trânsito. Num outro ponto, uma concentração de pessoas cercava um casal que se agredia verbalmente. A impressão que dava era de que aquelas pessoas se deliciavam com aquele show de ofensas e não demonstravam nenhuma intenção de reprimir ou separar o conflito antes de chegar as vias de fato. Próximo ao local, uma lanchonete movimentada exibia em seu televisor um programa de cunho policial. As pessoas ali, hipnotizadas pelo drama alheio, levam para suas vidas pessoais toda a negatividade das notícias. As conversas então, nem se fala. Bastou recostar num banco de praça para que os queixumes, críticas e fofocas partam daqueles que se aproximam para bater um papo, sem o menor receio das consequências que isso poderá acarretar em suas vidas. E o que dizer dos profetas do fim do mundo. Munidos de uma bíblia e de um pseudoconhecimento, utilizam de seu poder de persuasão para diluir o medo entre as massas, e não arredam o pé dos locais de movimento, até que um grande número de pessoas entrem nessa onda. E assim, as coisas boas e as belezas sutis que podemos encontrar pelas esquinas, passam despercebidas, como um rapaz que recitava poesias ao vento, pois quase ninguém parou para ouvir e meditar na sua arte, ou mesmo um grupo pequeno de teatro de rua, que distribuia abraços, gentilezas e palavras de alegria aos passantes.
agosto 12, 2016
Indiferença
Certa vez convidei uma pessoa para passear.
- Como o dia está bonito! Céu azul e uma temperatura agradável. Ideal para um passeio! (animado)
- Sim. (resposta monossilábica)
- Parece que as pessoas ficam mais felizes quando o dia está ensolarado. Veja as crianças! (observador)
- Parece mesmo. (acendendo um cigarro)
- Mais tarde vamos ver o pôr do sol e tomar um café. Você vai gostar! O café daqui é ótimo! (animado)
- Está bem. (indiferente)
Às vezes deparamos com pessoas sem sentimento pela vida. Não que elas estejam tristes ou desinteressadas, mas por serem de natureza fria mesmo. Não a convidei mais para passear por uma simples questão de afinidade. Sem mais julgamentos.
julho 11, 2016
Pelo mundo
Um homem que decidiu levar consigo seus medos e aos poucos deixá-los pelo caminho.
Um homem que sabia que um ato de caridade poderia resultar num perigo a menos em sua viagem.
Um homem que decidiu levar poucas coisas mas com a confiança inabalável no porvir.
Um homem decidido em não tirar fotos, apenas registrar em sua mente.
Um homem que deixou rastros, uma saudade serena por onde passou.
Quando saiu de casa era um homem.
Ao retornar era outro.
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