dezembro 10, 2012

novembro 09, 2012

Vida de caminhoneiro

 
Foto: Marilene Simão

São sete horas da manhã. Assim é a vida do caminhoneiro exausto. É difícil acordar. Quando paramos para dormir, sempre queremos estender o sono um pouquinho mais, apesar da responsabilidade em cumprir horários e do frequente barulho e movimentação do porto seguro de todos nós - os restaurantes e postos de gasolina.

Um cafézinho pela manhã é muito importante para nos fazer acordar. No entanto, vejo alguns por aí, recorrendo a uma branquinha logo cedo. "Na estrada não há espaço para brincadeiras. A atenção tem que ser redobrada."
Nas retas à perder de vista e nas canções caipiras das estações de rádio, vem inúmeras recordações. O aconchego da casa, o afago da mulher e as brincadeiras dos filhos pequenos. Tudo fica para trás. Na estrada, desenvolvemos o desapego.

Quando estamos dirigindo, achamos que o fluxo da pista contrária, é daqueles que estão na contramão do fluxo natural da vida. Não estão. É que cada um tem o seu caminho.

Nas árduas jornadas pelo asfalto, somos obrigados a conviver com todo o tipo de ruína moral. A prostituição desenfreada, a ação perniciosa dos bandidos e a extorsão quase insuportável dos maus policiais rodoviários.

Mas por outro lado, é recompensador. Tem as delícias de milho verde para degustar, a união e a solidariedade dos companheiros de profissão, os exemplos de fé e agradecimento na peregrinação dos romeiros rumo ao santuário e histórias de vida curiosas das várias pessoas que encontramos pelo caminho. Como esta de um andarilho: "Faz quatro dias que estou caminhando, somente me alimentando das frutas dos pomares de beira de estrada e bebendo água das cachoeiras. Não tenho dinheiro. Fui procurar um emprego na cidade grande e não consegui, porque sou analfabeto. Agora estou voltando para minha cidade natal, para junto de minha mãe. Sei que ainda estou muito longe, mas para quem já caminhou quatro dias, mais um dia não me custa. Com ajuda e a proteção de São Jorge e as bençãos da minha avó falecida, chegarei lá."

outubro 16, 2012

Flores e filhos

 Pintura: flores (óleo sobre tela) / Autor: Paulo Freixinho
 
Um homem faz uma proposta para sua mulher.
 
Ele: Vamos começar a ter filhos?
 
Ela: Ainda não. Tenho outras prioridades. (resposta firme)
 
E o homem entrou em desalento.
 
Como forma de compensar essa negativa, não demorou para encher a casa com as mais delicadas flores.
 
Primeiro chegou com um vaso de orquídeas brancas.
 
Depois com acácias, azaleias e crisântemos.
 
Lírios e margaridas.
 
E por fim, com as tulipas.
 
A casa ficou abarrotada de flores.
 
Desde então, passou a cuidar de todas elas com o maior carinho e atenção.
 
Dias e noites, de rega em rega.
 
A mulher, pasmem, visivelmente enciumada, contrariou:
 
- Pra que tanto cuidado com essas flores?
 
E o homem respondeu, satisfeito:
 
- Porque de agora em diante, esses serão os meus filhos.

setembro 27, 2012

Boemia

Foto: Michelle Brea
 
Sofria o mal da insônia. Deitado na cama, buscou com os olhos a janela do quarto, e nela viu os últimos respingos de uma pancada forte de uma chuva de verão. Lá fora, ainda se ouvia toda a balbúrdia do bar da esquina de quando foi se deitar.

Eram três da manhã. Levantou, foi até a janela, e custou acreditar que toda aquela chuva, não foi suficiente para afugentar o ânimo daquele odioso bar. "Porque não atentei a esta balbúrdia na hora de decidir morar aqui" - se lamentou.
Colocou uma roupa e desceu para falar com o porteiro do prédio. E desabafou: "Essas pessoas não tem o hábito de dormir? Há quanto tempo existe este bar?" O porteiro respondeu: "Não sei ao certo, mas posso te garantir que ele é tão antigo quanto as fraquezas humanas."

Pensou em discar logo para a polícia, mas antes foi até o bar, para tentar silenciar toda aquela arruaça por conta própria.

Circulou por entre mesas, cadeiras e pessoas, pedindo para que todos fossem embora, mas sequer deram ouvidos para ele. Só lhe deram uma pequena atenção quando ele esbarrou sem querer numa garrafa de cerveja de um casal, que estupefatos, viram o líquido precioso se espalhar pela mesa. "Qual é!" - disse a mulher cafona.

O motivo de tanta indiferença, é porque acharam que ele era um homem doido, insensato, que circulava por ali desprovido de razão, mas na verdade, de acordo com seus princípios morais, eram eles os desprovidos de razão.

No pouco tempo que circulou pelo bar, deu para sentir os ares da libertinagem, da gula e do alcoolismo, que estimulava as pessoas a ficarem cada vez mais e mais naquele ambiente.

E as suas tentativas foram se esvaindo pelo chão, pela sua impotência em disciplinar sozinho, como homem simples e imaculado, tamanhos prazeres de uma vida desregrada.

setembro 10, 2012

agosto 27, 2012

Despidos

 
Foi um Deus nos acuda. A notícia de que as pessoas estavam sendo despidas por um rasgo da natureza, se espalhou rapidamente. Foram muitas as interpretações. No começo, algumas pessoas não levaram a sério, atribuindo o fato como uma histeria metafórica qualquer. Outras, levaram a conversa ao pé da letra, associando esse ato de despir, às suas vestes. Os que tinham o atributo da perspicácia, logo entenderam - estariam nús em alma. E nesses, a inquietação foi evidente, pois entenderam que estariam à mostra, os despudores, as sem-vergonhices, os segredos e toda a imoralidade escondida no âmago de cada um. Na esteira das especulações, havia o pressentimento de que dali em diante, a mentira não teria mais espaço neste mundo. E foi o que aconteceu. Bastava conversar e interagir com uma outra pessoa, para que o mundo interior dela viesse à tona, como páginas abertas de um livro. Como forma de se proteger do constrangimento da exposição pessoal que isso acarretaria, algumas pessoas se tornaram menos sociáveis, se escondendo literalmente, sobretudo aquelas que adoram criticar, mas que odeiam ser criticadas. Até os adeptos da mentira compulsiva, começaram a despertar do "Véu de Maya" de seus equívocos. Porém, nem tudo era embaraços. Alguns viram nessa ocorrência, uma oportunidade sem igual para educar os seus instintos mais primitivos e infantis.

agosto 10, 2012

A vizinha ao lado toca violino


Ele percebeu que no apartamento ao lado tinha um morador novo. Antes, morava uma família que quebrava o silêncio da noite com conflitos e algazarras. Agora, ouve-se todas as noites, um sublime som de violino, tocado por alguém com maestria. "Quem será?" - se perguntava com o ouvido colado na delgada parede que separa os apartamentos. "Pelo timbre mais aveludado das cordas, só pode ser uma mulher" - concluiu. E o som não eram queixumes de uma suposta violinista solitária, e sim a celebração da vida. "Ó vida que está por trás de quem está tocando!" E as noites que se seguiram foram jubilosas para os seus ouvidos. Até que numa noite, sedento pela curiosidade, tocou a campainha do apartamento ao lado. E nesse hiato entre o tocar da campainha e a abertura da porta, suas pernas ficaram trêmulas diante do que poderia ver e conhecer. Pois veio a confirmação. O que viu, parecia ter saído e se materializado de uma pintura das mais belas. Era uma mulher com traços angelicais portando um raro violino Stradivarius. E os dois se olharam por alguns segundos com uma doçura nunca antes vista, até ele dizer em êxtase: "Seja bem-vinda."

julho 20, 2012

Nada se perde. Tudo se leva.

Gravura: Carroceiros SP / Artista: Mundano

Tinha um montinho de lixo na calçada. Fazia pouco tempo que colocaram ali. Uns cinco minutos talvez. O suficiente para que uma primeira pessoa fosse dar uma olhada. Essa pessoa era um homem de bicicleta. Parecia um andarilho. Tinha a pele curtida pelo sol, barba grisalha e a solidão como companheira. Ele levou embora todas as latinhas de alumínio.

Não passou nem um minuto para que uma segunda pessoa parasse por ali. Dessa vez era uma mulher. Vestia um longo vestido e o seu pescoço estava abarrotado de colares. Também tinha a pele curtida pelo sol e as suas unhas eram grandes e pintadas de vermelho. Essa parecia uma cigana. Se encantou com um par de sapatos de salto que estavam ali. Levou embora os sapatos para alimentar a sua vaidade.

Pouco tempo depois veio um carroceiro. Parou meio ofegante com o peso do mundo na carroça. Levou embora os papelões com os olhares de fidelidade e admiração de seu cão de estimação.

Outro que deu as caras, foi um jovem carente sonhador. Este se apoderou de algumas apostilas velhas quase inutilizáveis, mas que poderiam servir para algum estudo. Levou-as embora com um brilho nos olhos e uma chama acesa no coração.

Por último, veio o guardinha da rua. Ele olhou, remexeu e não encontrou nada que pudesse aproveitar. Nem alimento, porque um gato já tinha fuçado, fuçado, comido e bagunçado tudo. Para o guardinha sobrou apenas a vigilância da rua.

Com tudo isso, daria até para fazer um trocadilho. Do "nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" para o "nada se perde, tudo se leva."

E assim, o montinho de lixo foi desaparecendo, como coisa efêmera e ilusória, como tudo que nos cerca, assim como os que passaram discretamente por ali com a lida de sobreviver, onde um dia a terra haverá de levá-los também.

julho 10, 2012

Ela não vestia roupas, somente trapos


Minha amiga me apresentou uma moça. Ela morava num barraco de uma favela onde essa minha amiga fazia um trabalho social. Ela era muito bonita. Tinha um olhar envolvente, cabelos compridos e ondulados, um rosto perfeito e um corpo escultural. Por outro lado, seus pés, mãos, unhas e roupas, eram maltratados e até mesmo um pouco sujos. Essa combinação se mostrava de certa forma atraente e afrodisíaco. Ela disparava uns olhares de interesse para mim. Cheguei a convidá-la por inúmeras vezes para sair comigo, por intermédio dessa minha amiga, mas ela sempre recusava. Passei dias e mais dias com um nó na cabeça e uma pedra no coração, na iminência de um relacionamento dos mais excêntricos. Precisava entender o motivo de tantos convites negados. E foi através da minha amiga que fui entender. Ela descobriu que o irmão dela, com fama de delinquente, a convenceu de que ela não valia nada e que não serviria para mim. Mas eu queria dizer para ela, que o seu irmão não sabia o que estava dizendo. Ela assimilou o que o irmão disse como uma verdade incontestável, devido a sua ausência de autoestima. Se há um lugar onde essa ausência é via de regra, esse lugar se chama favela, com seus córregos fétidos e barracos com chão de terra batida. Ela colocou um outro empecilho. Ela não queria sair comigo, porque não tinha uma roupa bonita para vestir. Chegou a comentar para a minha amiga, que não vestia roupas, somente trapos. Mas eu queria dizer para ela, que isso também não importava, e que se fosse preciso, compraria para ela muitas roupas bonitas. Mesmo assim, ela foi se esquivando até desaparecer da minha vida. Acabei vencido pelas circunstâncias que envolvem a miséria.

julho 02, 2012

De passagem

Foto: Rosie Hardy

Já não lhe fazia mais sentido continuar morando na sua cidade natal. Ele sentia que a sua passagem por ali havia terminado. Até porque, aos seus olhos, as cores que davam vida e contornos a cidade, já não eram mais as mesmas, logo padecendo de uma angustiante morosidade. Há quem diga que as pessoas não foram feitas para nascerem, viverem e morrerem no mesmo lugar. Ele também pensava assim. Frequentemente, contemplava nas terras altas dos arredores, o vai e vem lá de baixo das coisas da cidade. Numa contemplação dessas, veio-lhe à cabeça - estamos sempre de passagem. E num passe de mágica, começou a brotar duas asas de suas costas, não como as de um anjo, mas asas suficientemente vigorosas para se deslocar por este mundão, com a finalidade de se completar como pessoa em um outro lugar.

junho 20, 2012

junho 08, 2012

O morador de rua


Há muito tempo reparava naquele morador de rua. Nas minhas idas e vindas, observava admirado o seu zelo e o seu capricho com o espaço em que vivia e também com as poucas coisas que tinha. Eu estava procurando observar coisas que talvez passariam despercebido pelas pessoas. Sim, porque ao sair de casa, estava decidido em tirar um aprendizado em situações onde não parecia haver um aprendizado. Assim, decidi conhecê-lo. E lá eu estava, num canto de rua próximo de um viaduto, meio inseguro, porém muito curioso, com alguém a princípio hostil, mas que demonstrava ser na verdade, uma pessoa bem acolhedora.

Ao me apresentar, ele me cumprimentou e convidou para sentar num estilizado caixote em pátina, que para minha surpresa, foi ele mesmo quem confeccionou. Parecia ser um homem com talentos. Sentados numa improvisada sala de estar à vista de todos da rua, comecei elogiando a sua maneira refinada de ser, que vinha observando de longe durante vários dias. Perguntei qual a razão de seu infortúnio, e ele me disse que era o seu hábito de beber, que acabou resultando na perda de seu emprego de porteiro, de sua casa e da sua família, mas que o cotidiano de rua, o acordou para a vida, para os seus sonhos aprisionados e para o seu vício que precisava ser largado, e que acabou largando. A rua poderia ter enterrado ele de vez no vício, mas a fé no recomeço quase improvável, fez largar para sempre.

Perguntei quais eram os seus sonhos, e ele me disse convicto: "Todos. Porque a possibilidade, por mínima que seja, é sempre real e verdadeira." Em seguida, se levantou, foi até aos seus pertences tão graciosamente acomodados, e tirou deles, uma caixinha de madeira com um desenho de um anjo em alto-relevo. Ao abrir, ele mostrou e compartilhou, como quem compartilha com um irmão mais próximo, os seus sonhos, objetivos e confidências, expressos em recortes de revistas e jornais, daquilo que ele pretende ser e de fazer algum dia.

Naquele punhado de recortes, bem conservados e guardados, estava o seu desejo de ainda estudar para se tornar um médico, de conseguir o perdão de sua famíla, de viajar para conhecer a cidade luz chamada Paris, e o mais importante - de morar debaixo de um teto digno. E nessa conversa agradável, quase ao pé do ouvido, os seus desdentados companheiros de infortúnio, que estavam próximos de nós, se contorciam de risos e de ceticismo a cada sonho verbalizado, esquecendo eles as voltas que o mundo dá.

Outra coisa que me chamou a atenção, foi a sua aparência, que por sinal não condizia com a sua situação. Tinha o cabelo bem cuidado, a barba feita e as roupas limpas, logicamente na medida do que era possível, entretanto, dava para se notar a sua tentativa e as suas artimanhas para se mostrar mais apresentável. Novamente elogiei a sua maneira de ser. Ouvi dele: "A dignidade de uma pessoa reside primeiramente na sua higiene pessoal."

E muitas e muitas coisas conversamos e eu sequer estava me importando em me verem por ali, porque estava aprendendo e até me aconselhando com alguém de boas maneiras. E essas boas maneiras independem de estudo e formação acadêmica.

Após esse longo tempo de conversa, fui embora com a vontade de fazer algo por ele, mas o que podia fazer de acordo com as minhas possibilidades de momento, era de presenteá-lo com produtos de higiene pessoal. O destino, generoso que é, haverá de cuidá-lo com toda a sua atenção.

maio 24, 2012

Percepções diferentes do tempo

Pintura: Salvador Dalí

E nessas coincidências da vida, dois conhecidos de longa data se reencontraram após anos.

- Quanto tempo! Como você está? (surpreso)

- Estou bem. E você? (mais contido)

- Também estou! Acho que faz longos dez anos que não nos vemos!

- Não entendo a sua surpresa. Tenho a impressão que foi ontem que nos vimos pela última vez. Esqueceu que dez anos é apenas um segundo na eternidade?

maio 12, 2012

maio 03, 2012

Uma curiosa relação de um ator e seu personagem


Desde o último dia do espetáculo, ele não foi mais o mesmo por um longo período. A sua dedicação em interpretar com excelência o seu personagem na peça de teatro, foi tão profunda e apaixonante, que ele continuou a interpretá-lo na vida real. O personagem se tratava de um jornalista, que após um acidente dos mais tolos, acabou se tornando um desmemoriado vagante, que começava a flertar com o submundo dos jogos de azar. Antes de mergulhar de cabeça nessa interpretação, já havia comentado com os seus colegas de profissão, que esse seria o papel de sua vida.

No noite da última apresentação da temporada de encerramento, após meses de uma intensa simbiose com o seu personagem, ele, após uma longa salva de palmas do público, saiu do palco em transe, passou batido por toda a equipe na coxia e foi direto ao seu armário pegar os seus pertences, indo embora para casa do jeito que estava - sem despir do figurino, da maquiagem e da interpretação. Todos estranharam. Ao chegar em casa, a sua mulher, surpresa, até achou graça, mas ao longo das horas foi se incomodando, porque aquele homem de todos os dias, que tinha o hábito de beijá-la carinhosamente todas as manhãs, desejando-lhe um bom dia, deu lugar a um homem frio e esquecido que trouxe do mundo do teatro. Ele passou a agir exatamente como o personagem.

Nos dias que se seguiram, a sua mulher, a sua famíla e pessoas próximas, já muito preocupados, estudavam uma maneira de tirá-lo desse transe, que até começou a virar piada nas fofocas de bairro. Suas ideias foram em vão. A preocupação se tornou maior, quando certo dia, nas suas andanças esquecidas, a sua mulher descobriu que ele estava se metendo numa jogatina forte, colocando em risco iminente as preciosas economias do casal. Destemida, passou a seguir os seus passos até o submundo dos jogos de azar, para numa noite pegá-lo em flagrante, se arriscando numa máquina caça-níqueis. Lá, ela passou-lhe um sermão e deu-lhe vários tapas na presença de muitas pessoas que faziam o mesmo, mas esses mesmos tapas não foram suficientes para acordá-lo.

Então, o diretor da peça de teatro foi convocado pelos familiares do ator para dar explicações e seu parecer sobre o que estava ocorrendo. Reunidos na sala da casa do ator, sem a presença dele, o diretor da peça - figura conhecida e emblemática do meio teatral - disse de maneira peculiar aos artistas: "O que está acontecendo com o nosso colega, é o êxtase do ator após o ato de interpretar um personagem." E disse mais: "Em qualquer atividade, quando nos entregamos de corpo e alma, acaba nos levando a estados nunca antes conhecidos." E levantando para se retirar, concluiu: "Caros amigos, esse deleite é passageiro. Em breve ele retornará a realidade."

abril 21, 2012

A mulher que esqueceu a sua alma em algum lugar

Foto: Patrícia C. Costa

Trancou a porta de seu apartamento e desceu em direção a rua em busca de algo que tinha perdido. Não sabia bem o que era. Apenas tinha uma sensação indefinida de que era algo muito importante. Desde a semana passada, ela começou a sentir um grande vazio e uma solidão profunda e taciturna, que lhe rendeu noites mal dormidas e uma baixa imunidade, levando até mesmo a adoecer. Isso tinha relação com essa perda. Talvez esse estado de espírito poderia causar uma certa estranheza, já que possuía uma família amorosa e muitos amigos verdadeiros. À medida que procurava pela rua esse algo indefinível e muito importante, o desespero aumentava, porque sentiu que isso lhe custaria a sua sobrevivência. Sua busca se concentrou nos arredores por onde sempre passou. Pelas calçadas, pelo meio-fio, pelos jardins que enfeitavam a rua e até mesmo por entre os carros estacionados. E nada. Procurou no comércio local e em outros estabelecimentos e as respostas eram sempre negativas. Perguntou para as pessoas que cruzavam o seu caminho: "Por acaso você viu algo que me pertence?" E as pessoas não tinham respostas para uma pergunta tão vaga. Compreendeu logo em seguida, que o que estava procurando, não era algo tangível. Caminhou mais um pouco e teve a feliz ideia de perguntar e se orientar com um jornaleiro, amigo de longa data. O jornaleiro - ombro amigo dos passantes - disse com convicção: "Pelo o que eu vejo, você esqueceu a sua alma em algum lugar." E a sua ficha caiu. Pensativa, sentou numa mesa da padaria ao lado, pediu um café, e entre goles, se perguntou desconfiada e cabisbaixa: "Aonde será que esqueci a minha alma?" Na vida, estamos sempre negligenciando e esquecendo nossas almas por aí, como crianças que se perdem de seus pais.

abril 06, 2012

Uma chuva incessante

Foto: 7 meteor

Era o quinto mês de uma chuva incessante. Em alguns momentos variava a sua intensidade, mas nunca deixava de cair. Apesar dessa condição desfavorável para passeios, ele saía todos os dias pelas ruas munido de seu guarda-chuva, em busca de respostas para o charco que se tornou aquela cidade. De início, toda essa água foi acarretando uma série de problemas de ordem urbana, social e emocional, e que foi lentamente conduzindo moradores e autoridades locais para um outro charco: o da resignação. Não obstante, ele e alguns moradores passaram a questionar a razão de tudo aquilo. Remexendo a sua memória, lembrou de uma conversa que teve com um cidadão de esquina, muito antes de começar a chover. O cidadão, incomodado com a sujeira das ruas e das vielas, alertou: "Veja só (passando o dedo sobre um carro). Essa sujeira impregnada na superfície de todas as coisas, não é uma simples sujeira de poluição. É a sujeira moral acumulada de todos os que vivem nesta cidade, que de tão viscosa, seria necessário um grande acúmulo de água para dissolvê-la." E a natureza com toda a sua sabedoria assim o fez, tratando de efetuar a limpeza num longo e obscuro período, onde quase tudo se perdeu, inclusive a esperança e o calor ameno, mostrando que seria preciso que todos os habitantes daquela cidade fossem mais puros e íntegros.

março 22, 2012

A honestidade


De repente foi tomado de surpresa por um assaltante.

- Anda! Anda! Passe-me o que tem de mais valioso.

- Veja. Não tenho nada de valor para te passar. Escolheu a pessoa errada.

- Tem sim. Não estou atrás de dinheiro, tampouco relógios ou celulares. Estou atrás de algo que você tem e que é mais valioso do que todos os bens materiais desse mundo.

- O quê?

- A honestidade.

E o assaltado ficou sem reação com essa abordagem insólita, porque não se furta bens imperecíveis como a honestidade.

março 10, 2012

Incômodos de verão


Cambaleando, tive que sentar numa sombra da praça e afrouxar o nó da gravata. O verão é assim. Às vezes perde-se o prumo. O verão tem as suas peculiaridades. Percebe-se que cada um derrete à sua maneira. Uns se entregam para a moleza, para o descompromisso e para a nudez, sem qualquer constrangimento, enquanto outros ficam de cabeça quente, com os nervos à flor da pele. Aliás, o verão é alegria, mas também é sinônimo de confusão.

Tudo estava parado. Desgraçadamente parado. Torcia para que uma leve brisa movesse as folhas das árvores para amenizar o clima abafadiço. De repente, o inimaginável aconteceu. O céu passou do azul para o laranja. O sol dobrou de tamanho e ofuscou os meus olhos. Então, comecei a perder os sentidos. Os pombos, coitados, foram caindo chamuscados do céu, um a um, forrando todo o chão da praça. Incrédula, uma idosa que estava passando se comoveu e veio blasfemar em minha direção. Antes de perder completamente os meus sentidos, ainda tive tempo de dizer para ela: "Aqui jazem vários pombos".

fevereiro 18, 2012

O rapaz que não tinha (quase) nada

Pintura: idolno!

Na rua existia um prédio. Este destacava pelo abandono. Mesmo assim havia gente. Famílias sem teto, que ao longo dos anos foram ocupando as suas dependências. Movido pela curiosidade, adentrei. Lá dentro, os adultos tinham uma confiança na vida e as crianças eram formosas, entretanto, o que me chamou a atenção, foi uma kitchenette sem a porta de entrada, onde morava um rapaz. Como nela não tinha uma porta para bater e nem uma campainha para tocar, não havia um limite entre o que era privado e público. Pois o rapaz nem se importava. Na parede da sala estava escrito a frase "a paz seja convosco!", de canetinha mesmo. O interessante também, foi verificar que tudo o que ele possuía, era apenas uma cadeira para sentar, um colchão de molas para dormir, uma pequena televisão para distrair, algumas peças de roupas para vestir e um vaso de flores para enfeitar. O rapaz, vendo a minha curiosidade, disse: "Quem tem um vaso de flores, tem todas as belezas." Verdadeiramente, este era um minimalista.

fevereiro 10, 2012

A impulsividade e a vergonha


"Cresça, apareça. Ao ver algo de errado, não se omita."
Essas palavras ressoavam constantemente em sua cabeça. Incomodava tanto, que vivia sequioso em mudar de atitude. Garimpava oportunidades para interferir em tudo aquilo que se fizesse necessário. Ouvia sempre de seu tutor: "Pior do que um homem mau, é o homem que vê o mal e acaba se calando. Esse tipo se compraz inteiramente com a maldade. Porém, tenha cuidado. Não subestime a maldade." Ele estava tão sequioso, mas tão sequioso, que certo dia, em praça pública, viu dois homens numa ríspida peleja, a ponto de se agredirem. Antes de chegarem as vias de fato, ele interferiu, separando-os, para pregar o respeito mútuo: "Parem! Parem com isso!" Logo em seguida, ele foi impedido por uma outra pessoa pela retaguarda, que irritada, disse aos berros: "O que você está fazendo! Nós estamos gravando!" Perdido naquela intempestividade do momento, ele custou em perceber todo o aparato de cena ao seu redor. Ele paralisou uma externa de gravação! Ruborizado, queria se explicar. A sua impulsividade criou-lhe uma armadilha. Em meio aquelas pessoas em praça pública, onde a arte estava imitando a vida com todos os seus pormenores, a sua vontade cega, mesmo que bem intencionada, mas sem o devido bom senso, conduziu-lhe para as raias da vergonha em público e da vergonha alheia...

fevereiro 01, 2012

janeiro 23, 2012

Neste mundo há lugar para todos


Bastou-lhe uma simples olhadela para perceber que todas aquelas pessoas naquele ambiente, estavam presas no ranço do conservadorismo. Nem sequer ousavam empreender algo diferente, fora dos padrões. Tampouco a coragem de questionar e discordar. Muito menos em serem flexíveis para darem um passo para trás quando necessário. Faltava nelas a percepção e a humildade de que um passo para trás num breve momento, pode resultar em dois passos para frente, logo adiante. Para todos ali, o que importava de fato, era a manutenção de suas posições, à custo de renunciarem as suas próprias verdades. Certa vez, quando se aproximou do seu mais novo colega de trabalho, notou que o mesmo sentiu-se incomodado, fazendo um movimento de acomodação e encolhimento em seu assento, como um animal para cercear território. Um claro indício daqueles que se sentem ameaçados. Não há como negar. Uma postura diz tudo. Ao ver essa reação, lembrou de uma afirmativa: "A ameaça é mais um fantasma para atormentar o homem. Engana-se quem pensa que somos feitos adversários." Ciente dessa perseguição ilusória que nos apodera desde sempre, e da posição de vítima em que nos enquadramos, ele colocou a mão no ombro daquele colega e disse algo simples e óbvio, com habilidade e brandura: "Neste mundo há lugar para todos, porque se não fosse assim, não estaríamos todos aqui." Suas palavras ficaram registradas naquele ambiente. E ainda se indagou: "Porque será que é tão difícil o ser humano enxergar as coisas óbvias?"

janeiro 13, 2012

Madrugada no aeroporto


O voo estava marcado para as seis da manhã. Ainda era meia-noite e ele tinha que se virar com as horas. Encostou num canto que lhe parecia o mais quieto e reservado. Tentou dormir, mas o assento, nem um pouco anatômico, não permitia. Quis fazer como as estrangeiras ao lado, que sem cerimônia, estenderam seus colchonetes pelo chão, à guisa de acampamento, para se entregarem a um tranquilo sono reparador.

Então, passou a distrair com a música, depois com a leitura, e por fim, com a escrita, se aventurando a escrever, seja lá o que for. Certa hora, acabou mergulhando numa auto-avaliação. Nessa horas é sempre bom. Fez duas listas, uma com defeitos e outra com virtudes. Colocou cada uma delas na palma das mãos e pesou. Ficou aliviado ao sentir que as virtudes pesavam um pouquinho mais do que os defeitos. Continuava fiel ao seu compromisso de melhorar como pessoa, com o propósito que estabeleceu: acertar mais e errar menos.

Passou a observar as pessoas que chegavam e saíam, e também ouvir as suas falas distantes. Tinham aquelas que chegavam de suas viagens e ligavam para seus familiares. Estes, quando chegavam com seus olhos semi-cerrados, recepcionavam elas com uma frieza das terras nórdicas. Entretanto, ao ver aquilo, não queria julgá-las, porque bem se sabe que o clima da madrugada esfria todo e qualquer gesto caloroso.

Lá no alto da madrugada, decidiu caminhar lentamente pelo aeroporto, observando atento aos detalhes que se apresentavam. Na área vazia do check-in, pôde sentir pelo ar, a ansiedade dos que partiam para o desconhecido e a saudade dos que ficavam, todos sedentos pelas boas novas do porvir.

Desceu uma, duas, três vezes a escada rolante pela contra-mão, até esbarrar com humores distintos, vindos de uma idosa que esboçou um sorriso amoroso com a sua traquinagem, e de um homem engravatado e sisudo, que lhe fitou com olhares de reprovação. Nunca antes fora tão cara-de-pau.

Foi ao banheiro, também vazio, para lavar o seu rosto. Aproveitou a tranquilidade do ambiente para fazer a barba, como se estivesse no recôndito de seu lar, e ainda, olhar profundamente em seus olhos no farto espelho e se aprofundar no existencialismo, com perguntas do tipo: "Qual a razão de ser? Você é realmente feliz?

O horário de seu voo já se aproximava, no entanto, sobrou um tempinho para um bate-papo casual com a mocinha da revistaria, que preocupada com o amanhã, já nem se alimentava direito e já costumava errar nas contas do troco. Pôde dizer um sem número de palavras reconfortantes para ela, que deixou-a mais confiante. Sentiu-se satisfeito por tirar daquele belo rosto feminino, um sorriso de gratidão. A caridade por meio de palavras, não tem hora, local e circunstância para ser praticada.

Como ele percebeu, não tem coisa pior do que longas horas num aeroporto, por mais que ele seja atraente. O ócio na medida certa é benéfico. Quando passa de um limite, torna-se angustiante.

janeiro 05, 2012

A bagagem


A bagagem pesava
Seria necessário desapegar e desfazer de muitas coisas para viver com mais leveza
Desfazer de pequenos objetos materiais sem valor,
das más recordações,
das rixas, picuinhas e tolices.

Não é o que parece,
mas as coisas pequenas geralmente pesam mais do que as grandes
Porque somos assim
Um acumulado de coisas pequenas sem utilidade.