setembro 24, 2011

Imaginações


Os olhares daquela bela moça deixou-lhe extasiado. Ela superava em muito o padrão de beleza que ele impôs para si. Muitas vezes chegava a duvidar daqueles olhares se perguntando: "Será que é comigo mesmo?" Na real, sentiu-se meio abobado, como um jovem nos primeiros amores. Levou a imaginar em estar numa noite especial, num jantar com ela, conversando animadamente, trocando confissões e gentilezas, beijos e carícias. Foi assim por vários dias, na ternura daqueles olhares e na bestialidade de suas imaginações. "Isso não pode estar acontecendo comigo" - afirmava. Acabaram se conhecendo ao meio-dia de uma sexta-feira. Engataram um agradável almoço, talvez como um aperitivo de um fim de semana promissor. Lá pelas tantas, na iguaria de sobremesa, ele tomou coragem e disse: "Reparei nos seus olhares para mim." E antes dele dizer mais alguma coisa, ela disse inocentemente, avesso as reais intenções dele: "É que você se parece demais com o meu irmão falecido. Eu tinha muito apreço por ele." Para decepção dele, os olhares daquela moça não eram um flerte. Apenas uma saudade.

setembro 17, 2011

Atentado ao ciúme

Foto: LonelyPierot
 
A companheira dele implicava demais. O motivo da sua implicância estava no fato dele não sentir nenhum ciúme dela. Ela chegou ao ponto de frequentar ambientes exclusivamente masculinos para chamar a sua atenção. Até que um dia ela se cansou e resolveu ir embora. Dias depois ele foi surpreendido com uma intimação. Que comparecesse num endereço citado para dar explicações sobre uma denúncia. E lá ficou boquiaberto ao descobrir que foi enquadrado em algo insólito - atentado ao ciúme. "Só poderia ter sido ela. Não compreendeu o meu jeito de amá-la" - esbravejou. Bem, ele sabia de que no mundo, de tudo se inventa, mas ele, com a sua maneira de amar um tanto excêntrico para os padrões estabelecidos, mas puro, verdadeiro e preenchido de maturidade, jamais poderia imaginar estar numa sala nauseabunda, de frente para uma autoridade, dando explicações de ordem íntima, sujeito a desembolsar uma quantia considerável para fiança e provavelmente condenado a prestar longos serviços comunitários.

setembro 10, 2011

A razão


- Não acho legal te ver pela rua conversando com os acometidos pela loucura.

- Porque não?

- Porque é uma perda de tempo.

- Por acaso, conversar com alguns dotados de razão não seria uma perda de tempo?

- Acredito que não.

- Você já reparou que muitos desses acometidos pela loucura se expressam no sentido alegórico? É só prestar atenção. Muitos de seus "supostos" absurdos são cheios de conteúdo. Parecem fazer algum sentido.

- Será?

- Sim. Entendo que a razão pode ter adormecido nessas pessoas, mas ocasionalmente ela desperta para mostrar que jamais ela morre.

setembro 02, 2011

Percepções

Foto: Ben McDarmont

Cheguei a dobrar os meus joelhos para tocar e compreender a textura daquela areia finíssima, cujos grãos se esvaneciam delicados e resplandecentes por entre os meus dedos. Isso me levou a desconfiar que existem coisas ainda mais deslumbrantes sob as minhas pegadas. O vento que soprava, contornava com toda a sua intensidade o meu corpo rijo, que porventura também costuma endireitar e curar àqueles cujos membros de seus corpos se encontram imperfeitos. Tinha o som do oceano, ainda que imutável e indiferente, foi capaz de afirmar em meus ouvidos que o silêncio não é necessariamente a ausência do som. Ainda, algo dentro de mim, como um sexto sentido, mostrava que por detrás da tempestade que se aproxima lá fora no oceano, descortina uma agradável surpresa.