dezembro 04, 2016
novembro 07, 2016
A razão da vida
Diálogo entre dois amigos com o oceano em seu derredor.
- Qual a razão da vida para você?
- Ora, nenhuma. A razão para vivermos está na ausência de uma razão.
- Desculpe, mas permita-me discordar de sua opinião. A sua resposta me parece vazia e inconsistente. Acredito que a vida tem muitas razões. Uma delas é nos aprimorarmos como pessoa através de uma reforma moral e íntima.
O amigo da ausência de uma razão ficou pensativo. Talvez essa resposta começou a fermentar algo profundo em seu interior.
outubro 13, 2016
Destruição
Pintura: A Ventania (óleo sobre tela) / Autor: Anita Malfatti
Quando as nuvens mais escuras baixaram, as pessoas se recolheram em suas casas. Os raios e as primeiras gotas de chuva começaram a cair. Até então parecia apenas mais uma chuva de verão. Porém, aquelas gotas de chuva foram se tornando cada vez mais grossas e em pouco tempo se transformaram em pedras de gelo enormes. Elas quicavam nos telhados sem dó nem piedade e atingia com força a lataria dos carros estacionados na rua, para o lamento de seus respectivos donos. O vento se tornou tão forte que algumas árvores se contorciam e perdiam a beleza de seus galhos e o acolhimento de seus ninhos. O uivar do vento atingia o ouvido das pessoas e dos animais com um viés apocalíptico. A energia do bairro caiu instantaneamente. No quintal da casa, o fluxo d'água se tornava intenso até chegar ao ponto em que o ralo não dava vazão para tanta água devido ao acúmulo do granizo. O jardim ficou todo branco e as plantas arrasadas. Num determinado momento a tempestade foi se amenizando para mostrar a real dimensão dos estragos. A garagem e o quintal era um misto de pedras de gelo, folhas e galhos de árvores. Para espanto, havia também muitos passarinhos mortos de bico vermelho e peninhas de cor cinza, que frágeis, sucumbiram diante da tempestade. Nesta casa havia um recém-nascido de apenas um mês de idade, que atravessou a agitação inteira num sono profundo dos anjos. Acordado pelos pais em seu gracioso berço, foram verificar estupefatos o estrago deixado pela tempestade. Lá fora, com o amamento da mãe, pôde abrir os seus olhos e ter o contato pela primeira vez com a morte e a destruição. A natureza havia cumprido o seu papel.
setembro 20, 2016
Curiosidade mórbida
Caminhava pelo centro da cidade até que próximo de uma estação de metrô havia uma concentração de pessoas assistindo o resgate de uma vítima de atropelamento. A curiosidade era tanta que a própria vítima deveria estar constrangida e oprimida por chamar tanta atenção e obstruir o trânsito. Num outro ponto, uma concentração de pessoas cercava um casal que se agredia verbalmente. A impressão que dava era de que aquelas pessoas se deliciavam com aquele show de ofensas e não demonstravam nenhuma intenção de reprimir ou separar o conflito antes de chegar as vias de fato. Próximo ao local, uma lanchonete movimentada exibia em seu televisor um programa de cunho policial. As pessoas ali, hipnotizadas pelo drama alheio, levam para suas vidas pessoais toda a negatividade das notícias. As conversas então, nem se fala. Bastou recostar num banco de praça para que os queixumes, críticas e fofocas partam daqueles que se aproximam para bater um papo, sem o menor receio das consequências que isso poderá acarretar em suas vidas. E o que dizer dos profetas do fim do mundo. Munidos de uma bíblia e de um pseudoconhecimento, utilizam de seu poder de persuasão para diluir o medo entre as massas, e não arredam o pé dos locais de movimento, até que um grande número de pessoas entrem nessa onda. E assim, as coisas boas e as belezas sutis que podemos encontrar pelas esquinas, passam despercebidas, como um rapaz que recitava poesias ao vento, pois quase ninguém parou para ouvir e meditar na sua arte, ou mesmo um grupo pequeno de teatro de rua, que distribuia abraços, gentilezas e palavras de alegria aos passantes.
agosto 12, 2016
Indiferença
Certa vez convidei uma pessoa para passear.
- Como o dia está bonito! Céu azul e uma temperatura agradável. Ideal para um passeio! (animado)
- Sim. (resposta monossilábica)
- Parece que as pessoas ficam mais felizes quando o dia está ensolarado. Veja as crianças! (observador)
- Parece mesmo. (acendendo um cigarro)
- Mais tarde vamos ver o pôr do sol e tomar um café. Você vai gostar! O café daqui é ótimo! (animado)
- Está bem. (indiferente)
Às vezes deparamos com pessoas sem sentimento pela vida. Não que elas estejam tristes ou desinteressadas, mas por serem de natureza fria mesmo. Não a convidei mais para passear por uma simples questão de afinidade. Sem mais julgamentos.
julho 11, 2016
Pelo mundo
Um homem que decidiu levar consigo seus medos e aos poucos deixá-los pelo caminho.
Um homem que sabia que um ato de caridade poderia resultar num perigo a menos em sua viagem.
Um homem que decidiu levar poucas coisas mas com a confiança inabalável no porvir.
Um homem decidido em não tirar fotos, apenas registrar em sua mente.
Um homem que deixou rastros, uma saudade serena por onde passou.
Quando saiu de casa era um homem.
Ao retornar era outro.
junho 10, 2016
maio 21, 2016
A flor dente-de-leão
Foto: Christine Amat
Uma moça caminhava num bosque. De repente ela olhou para uma flor dente-de-leão que se destacava em meio a relva. Então, se agachou para pegar. Logo em seguida a flor se iluminou. Segurando-a, olhou para o céu e assoprou. As sementinhas se espalharam e foram levadas pelo vento para muitos lugares. Algumas voaram para longe, outras ficaram por perto. A partir desse momento tomou uma decisão pessoal. Que deixaria de controlar sua própria vida. Daria a permissão para que dali em diante o universo tomasse as rédeas de seu destino. Nesse instante uma luz surgiu de algum ponto distante do bosque e veio em sua direção, atingindo-a. Instantaneamente seu corpo ficou translúcido e passou a se elevar e flutuar. Sentiu-se leve como nunca havia sentido. Já acima da copa das árvores, fechou os olhos e também deixou-se levar pelo vento como as sementinhas da flor dente-de-leão.
abril 19, 2016
Uma grande invenção
Muitos pensadores se reuniram para avaliar o impacto dessa tecnologia, semelhante aos replicadores da série Star Trek, que poderia acabar da noite para o dia com as mazelas que afligem o nosso mundo, principalmente a fome. Os pensadores mais visionários ficaram entusiasmados com o avanço que a humanidade teria, entretanto cautelosos com a possibilidade do mau uso do dispositivo por parte de uma minoria. À espreita da situação, avaliaram o real nível de amadurecimento das pessoas em lidar com o dispositivo e com isso chegaram em prováveis cenários.
Num desses cenários, algumas pessoas poderiam abusar desse recurso de abundância para satisfazer seus caprichos, se entregando na criação desmedida de bens materiais e produtos alimentícios.
Num cenário mais preocupante, algumas pessoas de mente destrutiva poderiam criar coisas para satisfazer seus instintos mais cruéis e primitivos, como armas por exemplo. O inventor desse dispositivo assegurou que nele há uma tecnologia de segurança, que permite limitar a criação de certas coisas.
Talvez algumas pessoas com crenças enraizadas em relação à escassez e sobrevivência, poderiam criar coisas para depois estocá-las, com a premissa de que os recursos do planeta estariam se esgotando devido a superpopulação mundial e por causa das mudanças climáticas.
Também algumas pessoas poderiam usar o dispositivo para criar dinheiro em vez de coisas que garantiriam seu bem-estar, tamanho o nível de programação que o sistema financeiro incutiu em suas mentes.
De acordo com os pensadores, a maioria das pessoas usariam o dispositivo com sabedoria, suprindo seus itens de primeira necessidade e também adquirindo bens que tragam um conforto saudável para suas vidas.
Num cenário mais inspirador, haveria muitas pessoas de consciência coletiva, que de posse do dispositivo, se entregariam em causas urgentes, como a ajuda humanitária para os desabrigados e para os famintos.
março 21, 2016
janeiro 10, 2016
Não há o silêncio absoluto
Fim de noite e início de madrugada.
O silêncio parece tomar conta de tudo, até que uma brisa arrasta pelo chão um montinho de folhas secas produzindo um som.
Bastou as folhas secas se movimentarem para que o silêncio fosse quebrado de novo. Dessa vez pelo canto de um quero-quero solitário, que parecia voar em meio a escuridão.
Minutos depois, um canto ininterrupto vinha de longe. Era de uma cigarra, que na ânsia de atrair uma fêmea nas horas altas da noite, sequer pediu permissão ao silêncio para colocar em prática o seu desejo.
Alguns insetos respeitam o silêncio. Basta ver os vaga-lumes e a sua bioluminescência. Usa um sinal luminoso para acasalar em vez de ficar incomodando o silêncio com alguma vibração sonora.
O morcego, por exemplo, não se cansa de voar, entretanto, se limita em fazer pouco barulho na hora de buscar alimento nas árvores.
Alguns gatos que vagam pelos telhados são cuidadosos, mas quando se cruzam pelo caminho, não há quem aguente seus miados.
Dizem que as estrelas cadentes quando caem fazem um barulho. Mas deve ser quase inaudível.
Se existe algo perseverante é esse tal de silêncio, que não esmorece diante das vibrações sonoras da noite e da madrugada.
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