março 29, 2010

O humanitário


Ninguém poderia imaginar que aquele rapaz no pico de sua sarada e promissora vida tomasse a decisão em sã consciência e desprovido de rodeios de abandonar sua realidade confortável. Cansado das facilidades de seu mundo pessoal, decidiu num átimo ao levantar de uma ensolarada manhã, embarcar numa viagem na contramão do percurso sóbrio e previsível das pessoas comuns da sociedade atual, no intuito de conhecer, segundo sua definição, o outro lado da moeda, lado este da escassez e do sofrimento nos rincões desse mundo. Sua família não entendeu, tampouco seus amigos, essa ação de nada tinha à luz do autoflagelo, apenas o desejo sincero da compaixão.

março 22, 2010

Sempre atento


Era meio da madrugada em uma noite cintilante e profunda. Sobre os infinitos grãos de areia da praia um grupo de pessoas deixam suas cantorias e pensamentos serem levados pela brisa incessante. Ali nem tudo era alegria. De repente, num levantar denso e silencioso, uma moça caminha em direção ao meio da praia. Ninguém naquele grupo parecia interessada em ouvi-la e sua presença ali não era notada. As músicas e a bebida pareciam ter mais importância do que seu desabafo. Sentada, teve a horrenda idéia de mergulhar no oceano revolto daquela noite, para sei lá, refrescar sua mente febril. Esse ato insano parecia intencional. Dentre aqueles que estavam nas cantorias, apenas um a seguiu. Prestativo, paciente e sempre atento ao que se passa ao seu redor, como poucos hoje em dia, a moça teve a sorte de encontrar naquele momento delicado de sua vida, alguém, tão somente um, jóia rara, para aproximar-se dela com delicadeza e decisão para salvá-la e ser seu manso e fiel confidente.

março 17, 2010

Partindo...


Descobrir é alimentar
Para isso
É elementar partir
Numa esperança de um momento derradeiro
Suavemente suspirar

Passagens de estações


Passagens contínuas de estações
Folhas caem, cores se vão
Neste círculo vai-se o cabedal
Ganhar e perder
Na cordura nada me faz temer
Da embriaguez das coisas que caem pelo chão
Da palidez sem vez
Argumentos alegres para crescer
Lamentar no intuito de que
Da aparente morbidez perpetuada
Um desabrochar de vida para surpreender.

março 16, 2010

Um olhar


Ele estava sentado no sofá quando num rabo de olhar viu alguém adentrar a casa. Era seu irmão com a pele rubra e os lábios cerrados. Já imaginara. Essa feição é dos que tentam e logo se decepcionam, afinal , o que esperar de alguém com uma visão de mundo tão estreita? Sem pudor, achava que as coisas se conquistavam por meios nem sempre honestos. As chamas de suas conquistas se acendiam e tão logo se apagavam. Por um momento se entrelaçaram num olhar decisivo e por não dizer, derradeiro, e somente por este olhar, achou que seu irmão despudorado parecia ter aprendido com seus enganos. Bem, só parecia. Como alguém a bater sempre na mesma tecla, só olhou, não disse nada e retirou-se para o seu quarto em silêncio para continuar a trilha dos enganos. O seu despertar ainda não foi dessa vez.

março 10, 2010

O velho sábio


O velho sábio fazendeiro conduz seu querido neto para uma conversa esclarecedora. O neto, muito curioso, já queria saber de antemão as artimanhas do velho. O velho portando um bumerangue e com a singeleza habitual dos que humildemente chegaram até a idade avançada, começou a esclarecer o significado do bumerangue, não como um mero objeto lúdico, e sim como um objeto cultuado na localidade, por exemplificar de maneira conclusiva a ação e reação ao lançar, fato é, uma lei da física e uma lei para o coração do homem. Para o menino, a base e o ensinamento primordial para suas ações na vida, tanto boas como más.

março 08, 2010

O triatleta


Fim de prova. O triatleta vencedor começa a recordar os obstáculos superados. Suas virtudes, sobretudo físicas, foram importantes para essa conquista. Comemoração veio mas logo se foi. Num tilintar caiu na real e sentiu no âmago que sua realidade é dura. Inúmeras dificuldades de ordem íntima ele encontra para viver. De nada serve sua invejável condição física. Durante a prova, ele percorreu o mar e as estradas. Agora, durante seus dias, tem que percorrer caminhos ainda mais difíceis, torturantes até então. Perseverança e constância são as virtudes a se armar. Sua alma vacilante cai seguidas vezes. Se fosse uma competição, já pensaria na possibilidade de desistência. Anos a fio foi imprudente ao negligenciar os cuidados com a matriz de si mesmo, ou seja, sua alma, o carro-chefe de sua existência.

março 07, 2010

A pureza


Refletindo, olhou para a nuvem e depois para o seu coração. A nuvem transbordou e fez chover. Em seguida seu coração transbordou e a fez falar. O que se ouviu foram palavras cheias de mágoas, que a fez lembrar o que haviam falado, "o que da boca sai é o que se tem em abundância no coração." E nesse súbito despertar, sabe se lá como, talvez como um filete de luz a cair em consciência, entendeu, e num gesto olhou para o céu, repousou a mão sobre o seu coração e jurou ser mais pura e amorosa.