junho 20, 2012
junho 08, 2012
O morador de rua
Ao me apresentar, ele me cumprimentou e convidou para sentar num estilizado caixote em pátina, que para minha surpresa, foi ele mesmo quem confeccionou. Parecia ser um homem com talentos. Sentados numa improvisada sala de estar à vista de todos da rua, comecei elogiando a sua maneira refinada de ser, que vinha observando de longe durante vários dias. Perguntei qual a razão de seu infortúnio, e ele me disse que era o seu hábito de beber, que acabou resultando na perda de seu emprego de porteiro, de sua casa e da sua família, mas que o cotidiano de rua, o acordou para a vida, para os seus sonhos aprisionados e para o seu vício que precisava ser largado, e que acabou largando. A rua poderia ter enterrado ele de vez no vício, mas a fé no recomeço quase improvável, fez largar para sempre.
Perguntei quais eram os seus sonhos, e ele me disse convicto: "Todos. Porque a possibilidade, por mínima que seja, é sempre real e verdadeira." Em seguida, se levantou, foi até aos seus pertences tão graciosamente acomodados, e tirou deles, uma caixinha de madeira com um desenho de um anjo em alto-relevo. Ao abrir, ele mostrou e compartilhou, como quem compartilha com um irmão mais próximo, os seus sonhos, objetivos e confidências, expressos em recortes de revistas e jornais, daquilo que ele pretende ser e de fazer algum dia.
Naquele punhado de recortes, bem conservados e guardados, estava o seu desejo de ainda estudar para se tornar um médico, de conseguir o perdão de sua famíla, de viajar para conhecer a cidade luz chamada Paris, e o mais importante - de morar debaixo de um teto digno. E nessa conversa agradável, quase ao pé do ouvido, os seus desdentados companheiros de infortúnio, que estavam próximos de nós, se contorciam de risos e de ceticismo a cada sonho verbalizado, esquecendo eles as voltas que o mundo dá.
Outra coisa que me chamou a atenção, foi a sua aparência, que por sinal não condizia com a sua situação. Tinha o cabelo bem cuidado, a barba feita e as roupas limpas, logicamente na medida do que era possível, entretanto, dava para se notar a sua tentativa e as suas artimanhas para se mostrar mais apresentável. Novamente elogiei a sua maneira de ser. Ouvi dele: "A dignidade de uma pessoa reside primeiramente na sua higiene pessoal."
E muitas e muitas coisas conversamos e eu sequer estava me importando em me verem por ali, porque estava aprendendo e até me aconselhando com alguém de boas maneiras. E essas boas maneiras independem de estudo e formação acadêmica.
Após esse longo tempo de conversa, fui embora com a vontade de fazer algo por ele, mas o que podia fazer de acordo com as minhas possibilidades de momento, era de presenteá-lo com produtos de higiene pessoal. O destino, generoso que é, haverá de cuidá-lo com toda a sua atenção.
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