agosto 27, 2012

Despidos

 
Foi um Deus nos acuda. A notícia de que as pessoas estavam sendo despidas por um rasgo da natureza, se espalhou rapidamente. Foram muitas as interpretações. No começo, algumas pessoas não levaram a sério, atribuindo o fato como uma histeria metafórica qualquer. Outras, levaram a conversa ao pé da letra, associando esse ato de despir, às suas vestes. Os que tinham o atributo da perspicácia, logo entenderam - estariam nús em alma. E nesses, a inquietação foi evidente, pois entenderam que estariam à mostra, os despudores, as sem-vergonhices, os segredos e toda a imoralidade escondida no âmago de cada um. Na esteira das especulações, havia o pressentimento de que dali em diante, a mentira não teria mais espaço neste mundo. E foi o que aconteceu. Bastava conversar e interagir com uma outra pessoa, para que o mundo interior dela viesse à tona, como páginas abertas de um livro. Como forma de se proteger do constrangimento da exposição pessoal que isso acarretaria, algumas pessoas se tornaram menos sociáveis, se escondendo literalmente, sobretudo aquelas que adoram criticar, mas que odeiam ser criticadas. Até os adeptos da mentira compulsiva, começaram a despertar do "Véu de Maya" de seus equívocos. Porém, nem tudo era embaraços. Alguns viram nessa ocorrência, uma oportunidade sem igual para educar os seus instintos mais primitivos e infantis.

agosto 10, 2012

A vizinha ao lado toca violino


Ele percebeu que no apartamento ao lado tinha um morador novo. Antes, morava uma família que quebrava o silêncio da noite com conflitos e algazarras. Agora, ouve-se todas as noites, um sublime som de violino, tocado por alguém com maestria. "Quem será?" - se perguntava com o ouvido colado na delgada parede que separa os apartamentos. "Pelo timbre mais aveludado das cordas, só pode ser uma mulher" - concluiu. E o som não eram queixumes de uma suposta violinista solitária, e sim a celebração da vida. "Ó vida que está por trás de quem está tocando!" E as noites que se seguiram foram jubilosas para os seus ouvidos. Até que numa noite, sedento pela curiosidade, tocou a campainha do apartamento ao lado. E nesse hiato entre o tocar da campainha e a abertura da porta, suas pernas ficaram trêmulas diante do que poderia ver e conhecer. Pois veio a confirmação. O que viu, parecia ter saído e se materializado de uma pintura das mais belas. Era uma mulher com traços angelicais portando um raro violino Stradivarius. E os dois se olharam por alguns segundos com uma doçura nunca antes vista, até ele dizer em êxtase: "Seja bem-vinda."