setembro 19, 2014

Vidas sem rumo


Era o começo de uma fria madrugada na rodoviária. Ele tinha acabado de chegar de uma viagem. Pelo horário não havia metrô, nem táxi, nem ônibus, tampouco uma alma caridosa ou sequer um parente que o levasse para casa. Mal acostumado, sempre dependeu da subserviência dos outros. Não havia outro jeito. Teria que passar a noite por ali, e aprender que nem sempre as coisas saem como o previsto e que nem todos estão sempre a sua disposição. Então sentou-se num banco desconfortável, olhou para o relógio e pensou no que iria se ocupar durante as longas horas até o nascer do sol. Se distraiu no seu smartphone, na leitura de um pequeno livro, e tentou, sem sucesso, dormir ou pelo menos cochilar na dureza do assento. Restou-lhe apenas observar o que se passava ao seu redor. Percebeu que naquele horário, algumas pessoas, que circulam sem rumo durante o dia, escolhem aquele lugar como um abrigo temporário para passar a noite. Se admirou com uma conversa de um ex-detento com uma mulher, que diligente, lhe ofertou uma prece sincera. Podia-se ver no semblante do ex-detento, a gratidão pelo novo sopro de vida. Também reparou numa senhora, que provavelmente foi excluída de seu meio familiar, e o cuidado extremo que ela tinha com seus poucos pertences. Talvez visse neles o que sobrou de tempos felizes. E assim, observando e tentando adivinhar as histórias de vida de cada um que escolheu aquela rodoviária como um abrigo, que ele percebeu o quanto essas pessoas demonstram um resistência física e emocional para vencer a secura de seus dias, o que seria louvável.