Por volta das dez da manhã, a pequena cidade foi sacudida por um tropel. Um pequeno mas barulhento circo, que aguçou a curiosidade de todos. Os habitantes se renderam para a novidade. No meio deles havia um jovem, que vendo tudo aquilo se mostrou animado.
Encantado com os jogos de malabares, com a esperteza dos mágicos e com a alegria espontânea dos palhaços, viu no espetáculo e sua itinerância, a oportunidade que em segredo tanto aguardava - de sair pelo mundo. Para ele, o tédio era o maior pecado da cidade.
Durante a noite, ele se deslocou até o acampamento do grupo para conhecer os bastidores do espetáculo. Foi bem recebido. Pespicaz, não demorou em flertar os seus olhos numa bela moça, integrante do grupo. Ela falava um portunhol confuso, que dificultava um pouco a comunicação, mas que não foi um empecilho para investir, quem sabe, num relacionamento amoroso que facilitasse a sua inclusão no meio deles. Foi um flerte com prudência, pois descobriu que ela era filha do exímio atirador de facas.
Seu intento acabou dando certo. Conseguiu conquistá-la na curta passagem do circo pela cidade. Agarrou a oportunidade que a vida lhe deu à sua maneira, engendrado. Sua conquista baseado na lábia logo se transformou num amor verdadeiro com o passar dos dias. Nada como uma convivência respeitosa e sincera para despertar um bom sentimento.
No fim das contas, esse relacionamento amoroso foi o passaporte para a sua inclusão no mundo do circo, onde se propôs a aprender o ofício dos artistas e seguir pela estrada da vida como companheiro fiel da moça. Um mundo na qual buscava, onde o passado logo se dissipa, onde o futuro sempre se apoia na incerteza e o presente é algo palpável.
