fevereiro 25, 2011
Insípidos
O trem já estava na estação. Se despediu da senhora que conheceu apenas no minuto anterior e que lhe desejou uma boa viagem. Entrou no trem com o propósito de buscar uma melhor sorte em outro rincão, mas logo no início da viagem foi acometido de uma estranha sensação. Fitando o ambiente do vagão, atentou na ausência da vivacidade na aura dos viajantes, na ausência do brilho e da contração de suas pupilas em resposta à luz do dia, na ausência de cores vivas em suas indumentárias e por fim, na ausência da chama da motivação que levantasse suas posturas cabisbaixas. Não satisfeito, atentou para si e percebeu que assemelhava a eles - um acumulado de pessoas insípidas. Por onde o trem passava, as janelas denunciavam o monocromo das paisagens. Não se via o verde das florestas, o dourado dos raios de sol e o azul celestino. Apenas matizes do cinza. Certos momentos o trem serpenteava vilas inóspitas, onde homens mortificados aravam a terra pobre, o gado magro se alimentava em pastos mirrados e mães cansadas seguravam seus filhos esquálidos. Por toda viagem se acostumou com a mesmice, com a falta de diálogo, com a ociosidade forçada, com o ar nauseabundo do vagão e com o molestar de uma mosca varejeira. Houve um momento para todos naquele trem, tão sutil e não menos derradeiro, que selou definitivamente seus destinos - a transcendência do costume para a acomodação. Assim, após um dia de viagem, certos no desembarque numa nova terra de oportunidades, o trem findou sua viagem naquele mesmo ponto de partida, para incredulidade e desilusão de todos. Era como se a partida e a chegada, o início e o fim, ocupassem o mesmo lugar, refutando uma lei da propriedade da matéria, em que dois corpos não ocupam o mesmo espaço. Foi um trem que andou em círculo, uma alegoria, sujeito ao padrão de comportamento de seus ocupantes, que nada tinham de ousadia e da quebra de paradigmas.
fevereiro 18, 2011
A estrepolia de um anjo
Houve um equívoco na inenarrável hoste celeste. Um anjo, membro do conselho cármico, burlou todas as premissas responsáveis pelos destinos humanos, invertendo-as completamente. Centenas de bons humanos foram transportados para o umbral e outras centenas de maus humanos para o paraíso. Este ato repercutiu por diversos níveis celestiais com extrema dramaticidade, tamanho seu ineditismo. Não se sabe as razões pelas quais levaram este anjo a cometer o ato, no entanto, algumas línguas próximas disseram que foi um processo experimental para avaliar e se divertir com os níveis de pretensão dos selecionados. A lógica funcionou. Na repúdia do enxofre, muitos reclamaram de seus direitos por condições dignas pós-morte, com justificativas e pasmem, com recibos de contribuições financeiras para casas de caridade. Outros, após uma vida sem plantar uma única bem-aventurança, colheram frutos alheios do melaço do paraíso em meio a bromélias e lírios da paz. Um conclave com a diretoria executiva do conselho tomou as rédeas do caso e primeiramente levou a julgamento e condenou o buliçoso anjo para níveis inferiores da criação, com honrarias de anjo caído, por ato inconstitucional pela violação dos direitos civis, desconhecendo os fundamentos da defesa do réu, que alegava que os anjos ainda possuíam em seus DNAs, inevitáveis resquícios das travessuras humanas. Dois anjos portadores da criação que estavam próximos ao tribunal, no átrio entrecortado por imponentes colunas de estilo grego com capitéis jônicos, dialogavam baseados num tema de um conhecido ditado popular humano - "seria cômico se não fosse trágico".
fevereiro 12, 2011
fevereiro 07, 2011
O homem do deserto
Destemido peregrino no páramo
Macerado pelo sol e pelas contínuas batalhas
Sempre passaste com maestria pelas ciladas do deserto
Conquistaste o respeito e o júbilo das tribos nômades e dos sorrateiros deuses das tempestades de areia
Se agora tu estás desnorteado
Não te acanhes esta noite na solidão taciturna
Olhe para cima
Lá estão os benevolentes diamantes para lhe guiar
São inúmeros para contar
Sírius, Vega, Denébola, Albireo...
Guerreiro, fique atento
Um feixe de luz parte delas
Para você captar.
fevereiro 02, 2011
Nostalgia reprimida

Sentou na mureta com suas pernas ao ar e a fronte para o mar, se refrescando com os últimos goles de água e sentindo o alvoroço de homens, mulheres, crianças e animais tateando suas costas. Não olhou, nem se importou. Percebeu que sua cabeça movia para trás até certo ponto e notou que a Criação foi caprichosa nisso. Olhar para trás? Molestar o passado? Para quê? Ao lado e próximo a ele, aos pares ou não, pessoas também ali sentadas pareciam remoer e regurgitar seus traços de nostalgia. Um observador de fora ao ver essas prostrações poderia pensar - "A nostalgia enredou e venceu nestes homens". De maneira alguma. Com ele o processo de assimilação era diferente. A perspicácia de seu olhar percorria pelo trôpego horizonte do oceano à perder de vista, e miragens, tão reais quanto os grãos de areia sob seus pés, apareciam com uma clareza espantosa, como um filme mostrando cenas de um futuro ditoso e promissor. O vento proveniente do mar, ora produzia, ora dissipava espumas distantes, como se os infortúnios seguissem o mesmo curso. Um leve perfume se misturava com essa mesma brisa marítima, que era a fragrância do amor, num ensaio do que virá, galhofando através de um mistério o gênero desse amor. Até mesmo a natureza avesso a bajulações, honrou seu espírito com mensagens subliminares. Não havia sequer na face da Terra tal homem naquele momento.
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