fevereiro 18, 2011

A estrepolia de um anjo


Houve um equívoco na inenarrável hoste celeste. Um anjo, membro do conselho cármico, burlou todas as premissas responsáveis pelos destinos humanos, invertendo-as completamente. Centenas de bons humanos foram transportados para o umbral e outras centenas de maus humanos para o paraíso. Este ato repercutiu por diversos níveis celestiais com extrema dramaticidade, tamanho seu ineditismo. Não se sabe as razões pelas quais levaram este anjo a cometer o ato, no entanto, algumas línguas próximas disseram que foi um processo experimental para avaliar e se divertir com os níveis de pretensão dos selecionados. A lógica funcionou. Na repúdia do enxofre, muitos reclamaram de seus direitos por condições dignas pós-morte, com justificativas e pasmem, com recibos de contribuições financeiras para casas de caridade. Outros, após uma vida sem plantar uma única bem-aventurança, colheram frutos alheios do melaço do paraíso em meio a bromélias e lírios da paz. Um conclave com a diretoria executiva do conselho tomou as rédeas do caso e primeiramente levou a julgamento e condenou o buliçoso anjo para níveis inferiores da criação, com honrarias de anjo caído, por ato inconstitucional pela violação dos direitos civis, desconhecendo os fundamentos da defesa do réu, que alegava que os anjos ainda possuíam em seus DNAs, inevitáveis resquícios das travessuras humanas. Dois anjos portadores da criação que estavam próximos ao tribunal, no átrio entrecortado por imponentes colunas de estilo grego com capitéis jônicos, dialogavam baseados num tema de um conhecido ditado popular humano - "seria cômico se não fosse trágico".

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