fevereiro 25, 2011
Insípidos
O trem já estava na estação. Se despediu da senhora que conheceu apenas no minuto anterior e que lhe desejou uma boa viagem. Entrou no trem com o propósito de buscar uma melhor sorte em outro rincão, mas logo no início da viagem foi acometido de uma estranha sensação. Fitando o ambiente do vagão, atentou na ausência da vivacidade na aura dos viajantes, na ausência do brilho e da contração de suas pupilas em resposta à luz do dia, na ausência de cores vivas em suas indumentárias e por fim, na ausência da chama da motivação que levantasse suas posturas cabisbaixas. Não satisfeito, atentou para si e percebeu que assemelhava a eles - um acumulado de pessoas insípidas. Por onde o trem passava, as janelas denunciavam o monocromo das paisagens. Não se via o verde das florestas, o dourado dos raios de sol e o azul celestino. Apenas matizes do cinza. Certos momentos o trem serpenteava vilas inóspitas, onde homens mortificados aravam a terra pobre, o gado magro se alimentava em pastos mirrados e mães cansadas seguravam seus filhos esquálidos. Por toda viagem se acostumou com a mesmice, com a falta de diálogo, com a ociosidade forçada, com o ar nauseabundo do vagão e com o molestar de uma mosca varejeira. Houve um momento para todos naquele trem, tão sutil e não menos derradeiro, que selou definitivamente seus destinos - a transcendência do costume para a acomodação. Assim, após um dia de viagem, certos no desembarque numa nova terra de oportunidades, o trem findou sua viagem naquele mesmo ponto de partida, para incredulidade e desilusão de todos. Era como se a partida e a chegada, o início e o fim, ocupassem o mesmo lugar, refutando uma lei da propriedade da matéria, em que dois corpos não ocupam o mesmo espaço. Foi um trem que andou em círculo, uma alegoria, sujeito ao padrão de comportamento de seus ocupantes, que nada tinham de ousadia e da quebra de paradigmas.
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