dezembro 17, 2015

Vazio


Existe um vazio.
Um espaço tremendamente amplo.
Insondável e sereno.
Que não se enquadra em nenhum tipo de limitação.
Este vazio está no intervalo entre um pensamento e outro.

outubro 13, 2015

Trancos e barrancos

Pintura: Sertão (óleo sobre tela) / Autor: Telma Weber 

Seu Mário era uma figura carismática. Tinha um sorriso largo e uma generosidade do tamanho do mundo. Sua história de vida é cheia de percalços. Quando era criança, morava lá no sertão. Desde pequeno via seus pais saírem cedo para trabalhar na roça para garantir algum sustento para família. Tinha dez irmãos, sendo que três deles faleceram de escassez antes de completarem um ano. Para eles, morrer era algo tão normal quanto um passarinho que morre na rua ou no seu jardim. Como os seus pais passavam o dia inteiro fora de casa, era o irmão mais velho que cuidava dos mais novos, e quando o irmão mais velho batia asas para o mundo, o segundo mais velho era quem cuidava. E assim sucessivamente. Um modo improvisado de passar pela infância. Quando chegou a sua vez de bater asas para o mundo, decidiu ir para o sudeste, mesmo jovenzinho. No começo sofreu mais privações, ao ponto de morar alguns dias nas ruas e na casa de terceiros. Certo dia, arrumou um trabalho numa fábrica de roupas clandestina. Um trabalho com nenhuma garantia trabalhista. Trabalhava horas a fio, até que um dia, desperto da sua inocência, percebeu que seu ofício era escravagista. Porém, antes de qualquer tentativa de escapar do lugar de servidão, foi ameaçado caso contasse para alguém. Chegou ao ponto de ser amarrado, hostilizado e ridicularizado, até que um dia, o destino abriu um porta que o conduziu de volta para luz do mundo. Já na vida adulta, se casou por três vezes. A primeira esposa foi acometida de um ataque fulminante no coração que lhe tirou a vida. Com a segunda, teve dois filhos, sendo que meses depois, ela lhe arrancou quase tudo, levando embora alguns bens materiais e a sua dignidade para ficar com outro homem. Logo em seguida conheceu a sua esposa atual, que magnânima, lhe ofereceu um ombro amigo e uma companhia para o resto de sua vida. Em meio a tantos infortúnios, um acidente de moto obstruiu a sua mobilidade no auge da vida. Ficou cerca de um ano se tratando com um fisioterapeuta. Ganhou pinos, placas de titânio e um sermão da esposa, para que desacelerasse como homem. Por sorte, se restabeleceu completamente e voltou a andar como antes. Apesar de tudo, as maiores cicatrizes se encontravam em seu âmago. Eram esses e outros tantos traumas vividos durante a sua vida, que logo foram tratados com um estilo de vida que adotou, onde prezava em viajar, em fazer amigos e praticar esportes, mesmo na idade avançada. Quando alguém conversava com ele, se impressionava com a sua experiência e seu porte secular, que encorajava os outros com a afirmação de que ninguém nessa vida escapa ileso, mas que no final das contas se chega ao fim, mesmo aos trancos e barrancos.

setembro 11, 2015

O Sol entre folhagens


Permita-me dizer uma coisa.
Ouvi dizer que o mundo não é bem assim.
É uma grande ilusão.
Um dia desses encontrei com uma pessoa que veio para confundir.
Disse para mim que o vento soprava de sul.
Não pude acreditar.
Mostrei para ele que o vento não vinha de sul, mas de leste.
Ora, bastava ver em que direção os guarda-sóis eram levados.
Bastava ver em que posição as cangas eram estendidas na areia.
Mesmo assim ele teimava em dizer que vinha de sul.
Ouvi dizer que tudo o que a gente toca não é real.
A nossa casa, o nosso carro, os nossos amigos, os nossos bichos de estimação...
Se estão dizendo que tudo o que a gente toca não é real, isso me leva a crer que o impalpável é o real.
Um dia desafiei uma criança.
Disse para ela que se um de nós pegasse o raio de sol ganharia um prêmio.
Foi em vão.
Ontem, caminhava num jardim.
Num certo momento pude ver várias bolinhas coloridas flutuando.
Azuis, brancas, amarelas.
Tentei pegá-las, mas não consegui.
Eram imateriais.
Ouvi dizer que a vida é uma encenação.
Que tudo o que a gente toca não nos pertence e é efêmero.
Ouvi dizer que somos todos atores.
Como se estivéssemos ensaiando uma peça de teatro.

agosto 03, 2015

julho 17, 2015

Equilíbrio

 
Era uma daquelas noites febris em que ele procurava algo para relaxar o corpo e equilibrar
a mente. Depois de pensar um pouco sobre isso, encontrou uma fórmula adequada para o momento. Colocou em seus ouvidos músicas diversas no intuito de se concentrar apenas em seus conteúdos sem que elas pudessem dar vazão para reflexões sobre a sua vida. Uma das músicas em questão tinha como característica marcante um vocal feminino. Essa voz penetrava suavemente em seus ouvidos em contraposição a levada um pouco mais pesada da música. Esse arranjo, mesclando o suave e o pesado se mostrou uma fórmula relaxante e inspiradora para ele. Era o ponto de equilíbrio. A inspiração de como deveria agir na rotina confusa de seus dias. De ser uma pessoa flexível quando lhe é pedido, e firme quando se faz necessário, sempre de maneira respeitosa.

junho 22, 2015

Banca de jornal

Desenho: Karina Kuschnir
 
Seis horas da manhã.

Uma banca de jornal aberta.

Um idoso parou na banca. Queria comprar um jornal somente com notícias boas. O jornaleiro com pesar disse que não tinha, mas que um dia haveria de ter. O idoso se foi descontente, porém com uma pontinha de esperança em seu coração.

Não demorou para que uma segunda pessoa aparecesse. Era um jovem bem arrumado com muito para viver. Não queria comprar jornais, revistas, tampouco cigarros. Queria apenas se informar sobre o endereço de sua entrevista de emprego. Saiu apressado e ofegante rumo ao seu destino, com os votos de boa sorte do jornaleiro.

Hora do almoço. Nessa hora do dia sempre aparece um homem. Ele é amigo de longa data do jornaleiro. Um tagarela. Costuma beber e conversar na padaria ao lado. Para ele só existe um assunto que ninguém aguenta mais - partidas de futebol.

Lá pelo meio da tarde, um mendigo se aproximou. Parou, olhou e disse uma porção de coisas desconexas. O jornaleiro, solidário, perguntou se poderia ajudar em algo. O mendigo, com olhar distante e preso em seu universo particular, nada respondeu. Apenas se foi, arrastando suas mantas pelo chão.

A noite se aproxima. O movimento continua.

Tem aqueles que param na banca para folhear revistas de fofocas e de mulheres seminuas.

Tem aqueles que fazem da banca um abrigo para fugir ou para se livrar de algum perigo.

Até mesmo como retiro momentâneo, para descansarem das intempéries da vida moderna.

E assim vai. Com as pessoas vindo e se esvaindo.

maio 11, 2015

abril 23, 2015

Um homem absorto pelas cerejeiras

 
Um homem próximo das cerejeiras.
Observava o movimento de cada flor que caía pelo chão, ora derrubada pelo vento, ora derrubada pelas próprias árvores.
Olhava com atenção para cada inseto que se aproximava e interagia com elas.
Não deixava de olhar para os passarinhos que pousavam entre galhos e se alimentavam das flores.  
As horas passavam e o homem permanecia ali, absorto nas miudezas.
Um homem que se prestou apenas em parar e observar.
Em demorar-se.
Uma raridade.

março 29, 2015

Indefinível

Pintura: Arte Abstrata / Autor: Hans Hartung
 
 
Certa vez, encontrei algo.
 
Talvez, um objeto.
 
Não sabia exatamente o que era.
 
Não tinha uma forma definida, nem uma função específica.
 
Não sabia dizer se era um produto do homem ou uma criação da natureza.
 
Se tinha vida própria ou não.
 
Fui atrás de pessoas que pudessem me dar algum parecer.
 
Pessoas ligadas a diversas áreas do conhecimento.
 
Ninguém conseguiu dar uma explicação convincente.
 
Um mistério.
 
Entretanto, o consenso foi geral.
 
Tratava-se de algo novo no mundo, incomum e indefinível.

janeiro 21, 2015

Verão

 
 
eu derreto
tu derretes
ele derrete
nós derretemos
vós derreteis
eles derretem
 
eu reclamo
tu reclamas
ele reclama
nós reclamamos
vós reclamais
eles reclamam