
Pintura / Autor: Federico Uribe
Naquela graciosa casa, morava uma família singular, que vivia para as artes e para os modos alternativos de vida. Lá morava um artista inquieto com a sua nostálgica esposa. Ela ainda vivia como nos tempos pretéritos. Vestia estampas com motivos florais e arrastava seu par de sandálias com miçangas. Tinham uma filha, ainda nova e já mergulhada nos costumes atemporais de sua mãe. Ela tinha o hábito de decorar seu cabelo com uma flor de margarida e costumava degustar balinhas de gengibre. O pai dedicava a ela uma atenção
especial, apesar dela ter vindo para o mundo sem ter sido planejado, porque o individualismo do pai como artista se fazia notar com a opinião de que filhos rompem todo o processo criativo.
Ele se vangloriava pela suas pinturas e seu método não-convencional para avaliá-las. Consistia em expor suas telas acabadas na varanda da casa para apreciação dos pequenos pássaros e insetos. Se os mesmos bicassem as frutas e as flores retratadas nas telas achando que fossem reais, elas estariam aprovadas. "Não há reconhecimento melhor do que da própria natureza" - orgulhava disso. Muitas vezes, sua genialidade era ofuscada por crises existenciais típico dos gênios mal compreendidos, que o fazia adentrar por períodos longos de abstinência criativa. Então, começava a dedicar, como terapia, a melhorias de um sistema de compostagem que passou a desenvolver nos fundos da casa, mas que ainda só atraía ratos e baratas, causando-lhe irritação.
Certo dia, a florzinha de sua filha, num lampejo de sabedoria, e de maneira habilidosa e meiga, comentou que a razão de todo o seu desequilíbrio emocional, era a sua busca descabida de uma perfeição que somente existe no rosto dos anjos, o que provocava uma espécie de bloqueio criativo. Esse comentário pontual, deixou-lhe pasmo pela maturidade. Numa conversa com a sua esposa, chegou a comentar com ela tal feito, e disse - "pudera os adultos ouvirem por um só minuto as crianças".
Assim, dia após dia, com a ajuda integral e recorrente de sua filha, mais do que da própria esposa, ele foi procurando lidar com seus descontroles. Quiçá, algum dia conseguisse por breves instantes libertar de sua genialidade que tanto o aflige.