julho 23, 2011

Barco de papel


Meu barco de papel
Coloquei nele algumas folhas secas da estação
e mais alguns galhos mirrados
Para lançar e se precipitar pelo curso d'água
Algo assim,
simples, leve e lírico
Como haveríamos de ser
Lá se foi o meu destemido barco
Rio abaixo
Margeando a mata ciliar

julho 10, 2011

Uma família singular

Pintura / Autor: Federico Uribe
Naquela graciosa casa, morava uma família singular, que vivia para as artes e para os modos alternativos de vida. Lá morava um artista inquieto com a sua nostálgica esposa. Ela ainda vivia como nos tempos pretéritos. Vestia estampas com motivos florais e arrastava seu par de sandálias com miçangas. Tinham uma filha, ainda nova e já mergulhada nos costumes atemporais de sua mãe. Ela tinha o hábito de decorar seu cabelo com uma flor de margarida e costumava degustar balinhas de gengibre. O pai dedicava a ela uma atenção
especial, apesar dela ter vindo para o mundo sem ter sido planejado, porque o individualismo do pai como artista se fazia notar com a opinião de que filhos rompem todo o processo criativo.

Ele se vangloriava pela suas pinturas e seu método não-convencional para avaliá-las. Consistia em expor suas telas acabadas na varanda da casa para apreciação dos pequenos pássaros e insetos. Se os mesmos bicassem as frutas e as flores retratadas nas telas achando que fossem reais, elas estariam aprovadas. "Não há reconhecimento melhor do que da própria natureza" - orgulhava disso. Muitas vezes, sua genialidade era ofuscada por crises existenciais típico dos gênios mal compreendidos, que o fazia adentrar por períodos longos de abstinência criativa. Então, começava a dedicar, como terapia, a melhorias de um sistema de compostagem que passou a desenvolver nos fundos da casa, mas que ainda só atraía ratos e baratas, causando-lhe irritação.

Certo dia, a florzinha de sua filha, num lampejo de sabedoria, e de maneira habilidosa e meiga, comentou que a razão de todo o seu desequilíbrio emocional, era a sua busca descabida de uma perfeição que somente existe no rosto dos anjos, o que provocava uma espécie de bloqueio criativo. Esse comentário pontual, deixou-lhe pasmo pela maturidade. Numa conversa com a sua esposa, chegou a comentar com ela tal feito, e disse - "pudera os adultos ouvirem por um só minuto as crianças".

Assim, dia após dia, com a ajuda integral e recorrente de sua filha, mais do que da própria esposa, ele foi procurando lidar com seus descontroles. Quiçá, algum dia conseguisse por breves instantes libertar de sua genialidade que tanto o aflige.

julho 02, 2011

Diálogo de guerra


Aquele suntuoso exército cercou o povo humilde. Naqueles tempos antigos, a truculência suplantava o diálogo na aquisição de terras. O contraste era grande. De um lado, um maquinário de guerra com homens bem treinados. Do outro, um povo pacífico, que empregava armas somente para caça. No entanto, houve um diálogo. O líder da plebe prestou-se à falar, ao mesmo tempo que, por entre cabeças de seu povo, surge num enrolado de panos carregado por uma singela mulher, um notável bebê, não como forma de escudo, mas de misericórdia. O caudilho daquele exército viu aquele bebê com reverência, porque refletia o brilho dos raios do sol daquela resplandescente manhã, tal como santo, muito mais do que todos os componentes metálicos do seu maquinário de guerra. "Onde há uma criança, não há conflito, muito menos guerra" - disse o líder da plebe. Com isso o caudilho num gesto, fez baixar sessenta bocas de canhão, desengatar trezentas baionetas e guardar cerca de oitocentos espadins.