Desde o último dia do espetáculo, ele não foi mais o mesmo por um longo período. A sua dedicação em interpretar com excelência o seu personagem na peça de teatro, foi tão profunda e apaixonante, que ele continuou a interpretá-lo na vida real. O personagem se tratava de um jornalista, que após um acidente dos mais tolos, acabou se tornando um desmemoriado vagante, que começava a flertar com o submundo dos jogos de azar. Antes de mergulhar de cabeça nessa interpretação, já havia comentado com os seus colegas de profissão, que esse seria o papel de sua vida.
No noite da última apresentação da temporada de encerramento, após meses de uma intensa simbiose com o seu personagem, ele, após uma longa salva de palmas do público, saiu do palco em transe, passou batido por toda a equipe na coxia e foi direto ao seu armário pegar os seus pertences, indo embora para casa do jeito que estava - sem despir do figurino, da maquiagem e da interpretação. Todos estranharam. Ao chegar em casa, a sua mulher, surpresa, até achou graça, mas ao longo das horas foi se incomodando, porque aquele homem de todos os dias, que tinha o hábito de beijá-la carinhosamente todas as manhãs, desejando-lhe um bom dia, deu lugar a um homem frio e esquecido que trouxe do mundo do teatro. Ele passou a agir exatamente como o personagem.
Nos dias que se seguiram, a sua mulher, a sua famíla e pessoas próximas, já muito preocupados, estudavam uma maneira de tirá-lo desse transe, que até começou a virar piada nas fofocas de bairro. Suas ideias foram em vão. A preocupação se tornou maior, quando certo dia, nas suas andanças esquecidas, a sua mulher descobriu que ele estava se metendo numa jogatina forte, colocando em risco iminente as preciosas economias do casal. Destemida, passou a seguir os seus passos até o submundo dos jogos de azar, para numa noite pegá-lo em flagrante, se arriscando numa máquina caça-níqueis. Lá, ela passou-lhe um sermão e deu-lhe vários tapas na presença de muitas pessoas que faziam o mesmo, mas esses mesmos tapas não foram suficientes para acordá-lo.
Então, o diretor da peça de teatro foi convocado pelos familiares do ator para dar explicações e seu parecer sobre o que estava ocorrendo. Reunidos na sala da casa do ator, sem a presença dele, o diretor da peça - figura conhecida e emblemática do meio teatral - disse de maneira peculiar aos artistas: "O que está acontecendo com o nosso colega, é o êxtase do ator após o ato de interpretar um personagem." E disse mais: "Em qualquer atividade, quando nos entregamos de corpo e alma, acaba nos levando a estados nunca antes conhecidos." E levantando para se retirar, concluiu: "Caros amigos, esse deleite é passageiro. Em breve ele retornará a realidade."