dezembro 21, 2010
dezembro 08, 2010
Ventanias campestres
novembro 26, 2010
Salvo-conduto materno

O viajante foi obrigado a cessar a sua andança pela vereda. Subtraído das providências para sua sobrevivência, lembrou-se dos sábios conselhos das mães incondicionais nas quais subestimou com veemência. "Carregue sempre um pão em seu alforje" - aconselhou sua mãe. Contrito, reconheceu num lapso, mesmo que tardiamente, que não há nada mais valioso que o salvo-conduto materno para colocar-se em passos pelo mundo. Comentou ainda com o primeiro que avistou pela frente, a afirmação que soa uma regra - "Bendito as mães que predizem" - porque é na idade avançada que reside todo o cerne do conhecimento e da experiência.
novembro 17, 2010
O lunático
...aliás, sempre comentavam que ele parecia um lunático. Algumas vezes sentava sob o luar e céu de brigadeiro na expectativa de que algo notório acontecesse naquele quadrante boreal noturno. E acontecia. Caía uma estrela ali, outra acolá. Absorto pelo que descortinava em seu campo visual, a abóboda celeste engendrava mecanismos matemáticos não menos poéticos. Pensava como podia tudo isso passar despercebido pelos outros nas ruas ou em seus próprios lares. Esses mesmos preocupavam em remexer a terra à perscrutar o céu. Preocupavam acima de tudo em assistir em demasia e levar à relevância, programas de tv que valorizam a tristeza e os maus costumes, ao invés de valorizar a alegria, se encantando com o andar contínuo de Marte pela linha imaginária de trânsito, dia após dia, sem pressa no porvir, por entre a lousa cravejada de estrelas. Bem, cada um na sua. Para ele, o fato de tentar compreender a dinâmica do céu, era uma forma de compreender a si mesmo.
novembro 16, 2010
novembro 03, 2010
O ilustre gênio da lâmpada

No mirante com vista para a cidade, os dois irmãos confidenciam sentados no aconchego de um banco. "Tenho um desejo incontido" - disse um deles. Durante o relato do desejo incontido, o que chamava a atenção era o corrupião na árvore ao lado com seu canto mavioso. "Aqui por essas bandas, o corrupião traz bons presságios" - disse. E num hiato, fez-se à luz, e alguns metros adiante e acima, apareceu. Era um gênio da lâmpada presunçoso de um só pedido. "Estou lhe ofertando pronto e acabado" - disse. O amigo do desejo incontido rechaçou - "Não aceito". O gênio da lâmpada reforçou - "Estou lhe ofertando pronto e acabado". O amigo do desejo incontido disse - "Regozijo com os meios, não com os fins". Essa assertiva desconcertou o ilustre gênio da lâmpada. Jamais alguém lhe disse algo contestador com tamanha profundidade e lucidez, ainda mais partindo de alguém com um nível hierárquico divino aparentemente inferior, o que o fez questionar a sua própria divindade auto-outorgada até então. "Nem mesmo as divindades outorgadas mantém-se em pedestais" - reavaliou. Assim, baixou a fronte e desceu de seu pedestal sob o olhar repreensivo dos dois irmãos. "Está bem. Compreendi a moral" - disse. Continuou - " Estou lhe ofertando os meios, porém tenho uma ressalva". "Qual? - disse o amigo do desejo incontido. E o gênio finaliza - "Que me informe seu êxito".
outubro 19, 2010
Desabafo da mesa de bar
outubro 18, 2010
Quarto de hotel

Pode parecer estranho, mas o homem que se hospedava naquele simples quarto de hotel, com banheiro, uma cama de solteiro, um simples armário e uma pequena mesa, parecia denotar que ele fosse mais um caso de solidão na esfera urbana. Na verdade, ele estava hospedado naquele quarto numa fuga consciente, porque somente ali, no sereno da marginalidade, poderia de fato, separar as impurezas da proveta de sua alma. De onde veio, a turbulência reinava, nada mais comum do que se vê por aí no ninho de relacionamentos humanos, porém, precisava dar um tempo de tudo e traçar metas para alavancar sua vida. Precisava muito, já que a cobrança da sociedade no culto de uma boa posição social vinha a galope, como uma manada de grandes animais a cercá-lo, mesmo no seio familiar, que na sua quietude, disfarçava a pior das cobranças. Entre uma social e outra na saída do quarto, uma leitura de livro, rascunhos de reflexões e análises de seu coração, conseguiu chegar num denominador comum. Agora lhe faltava a coragem de agir. Essa mesma coragem tão citada no heroísmo das experiências do ser humano na poeira do tempo linear, e que nesse momento, o colocou entre a cruz e a espada.
outubro 04, 2010
Reciclagem
Sufocada por se doar muito aos outros, ela ergueu sua mão direita e deu um breve até logo para as pessoas a sua frente. Sem olhar para trás, caminhou cantarolando com seus pés descalços para o vasto campo a perder de vista. Num passe de mágica, sua feição adquiriu novos contornos. Seus olhos se tornaram radiantes e os cabelos ligeiramente elegantes. Sua respiração se tornou menos ofegante e seu andar mais leve e refinado. Era a sua reciclagem. Porém, como de costume, sempre haverá a crítica dos infelizes exorbitantes pelo justo descanso alheio. Contrariando a visão de mundo deles, o vasto campo tocou sua alma mostrando que para estar apto em ajudar os outros, é preciso antes se ajudar. Ela sorriu aliviada, pois percebeu que não existia inteligência na sua humanidade sem limites.
setembro 21, 2010
Uma paisagem trivial

Através daquela janela emoldurada com vista para o mundo, viu uma paisagem. Por intermédio dela, observou as nuances que compunham a paisagem e nele um cenário. Sentiu a frieza das construções sem vida, com cores frias e opacas, que abrigavam vidas num lento curso das horas. Em contrapartida, a vida da natureza se fazendo pelas árvores, jardins e pequenos pássaros, caracterizados por cores mais fortes e vibrantes. Perfazendo o cenário, a presença do movimento. Aparentemente a natureza se mostrava inerte, até que uma leve brisa movimentou, deslocando as folhas na calçada e um singelo sino dos ventos, que pôs para tocar. Ora, até nas paisagens por demais triviais é possível se extrair algumas palavras...
setembro 17, 2010
À deriva
Da bonança à tempestade, assim sucedeu. Embora tivesse um roteiro pronto para seguir, viu-se literalmente à deriva. Prometeu fazer aquilo que os outros não conseguiram fazer, estava certo disso, mas ficou de sobressalto, surpreso com si mesmo, pois também não conseguiu. No preceder, esqueceu-se de despir da armadura da arrogância e pretensão, e ainda, de limitar-se ao cultivo saudável da autoconfiança racional, e como tal, entregar-se ao ditame circunspecto que diz - "Tenha um conceito moderado de si mesmo."
setembro 02, 2010
Pequenos gestos
Prosa vai, prosa vem, o rapaz, atento as peculiaridades, cercava sua nova investida. Era uma morena que para surpresa dela, ouviu dele: "Em nossa curta convivência, conheço-te pelos teus pequenos gestos." Continuou: "Sei que é educada, pois não deu apenas um simples bom dia para todos, mas um bom dia com um leve sorriso de canto. Sei que é alegre e otimista, pois deu até gargalhadas das contrariedades e de seus deslizes. Sei que é equilibrada, pois deu profundos respiros antes de agir e responder com elegância. Talvez aqueles que mais observam, como eu, são os que mais necessitam aprender. Por fim, desculpe a minha ousadia. Quer casar comigo?"
agosto 20, 2010
Poema de Brasília
agosto 13, 2010
O pássaro negro

Oxalá, se fosse um belo pássaro. Não, era um pássaro decrépito, meio humano e caricato. Herege, dizia pérolas do tipo: "onde duas ou mais pessoas estiverem reunidas em meu nome, lá estarei no meio delas". Bastava que essas duas ou mais se entregassem ao sabor das fofocas, aos comentários esdrúxulos, aos exageros do ciúme, aos azedumes e ataques de fúria, para com seu magnetismo, praguejá-las sem ser notado. Sarcástico, se divertia depois ao verem essas mesmas pessoas reclamarem de suas amarguras. De fato, somente rindo para não chorar por mais essa figura alegórica criada e alimentada por nós mesmos através de nossas repetitivas mazelas.
agosto 02, 2010
julho 22, 2010
Mãos de porcelana

Delicadas mãos de porcelana. A delicadeza que tanto encanta é a mesma que desencanta. Onde antes se via mãos de porcelana, hoje se vê mãos calejadas com uma trajetória para contar. Finalmente, suas mãos resolveram trabalhar e foram capazes de realizar grandes coisas simplesmente porque deixou de olhar, admirar e invejar as mãos de seus companheiros de vida.
julho 12, 2010
julho 05, 2010
O questionador

O dia começou. Decidiu que iria despir de tudo aquilo que prendia sua atenção no caminho para o seu ofício, entre eles, o fone de ouvido que não deixava ouvir os sons da rua e o livro da leitura diária na condução. Assim finalmente poderia olhar e se entreter com o vai e vem do mundo real expresso nos diversos semblantes dos transeuntes, com suas feições de alegria, tristeza, satisfação e insatisfação. Ouviu atento as conversas de quem esteve ao seu lado nas conduções e não obstante, inquieto, tomado por uma coceira interna, queria confabular, expressar uma opinião, dar um conselho talvez. Guardou-se e apenas concentrou nos decibéis de uma cidade grande. Em determinados momentos um silêncio abatia nas aglomerações de modo a ninguém se interagir, causando-lhe certa estranheza. Enfim, era um aglomerado de indivíduos sem alma. Se perguntou: Afinal, qual o propósito de tudo isso?
junho 23, 2010
Escassez

De dia, todos felizes deitados à mercê de suas esperanças. De noite, todos cantam com um par de músicos que dedilham as cordas de seus respectivos violões. Nas suas canções, alguns reclamam da vida. Falta isso, falta aquilo, mas pelo menos notas musicais não irão faltar. Felizmente nas melodias da vida, a escassez nunca é completa. Sempre haverá cantorias para aventurar e um mínimo de sombra para se proteger.
junho 15, 2010
maio 28, 2010
O monossilábico

"Se não possui algo de bom para falar, melhor não dizer nada". E assim, seguindo o percurso econômico das palavras, o monossilábico rapaz dosava o conteúdo do que falava. Desenvolveu um modo de abster-se de palavras vãs e inconsequentes. Suas pausas acompanhadas de uma boa dicção, sugeria um ótimo orador. Suas respostas curtas e objetivas, sem mais delongas, era de uma secura evidente, entretanto muito verdadeiro. Elegeu a palavra "não" como a primeira de seu dicionário. Sim, a palavra "não", tão difícil de ser falada, terrível, mas necessária. Somando um adendo a máxima "você é o que come" para "você é também o que fala", acreditava que a educação refina os membros do corpo, vide os traços bem desenhados de sua boca e de seus dentes. Por assim dizer, o que menos fala talvez é o que mais ouve e isso é uma grande virtude.
maio 17, 2010
Bolso puído
maio 13, 2010
Sublime amizade

Voltando para sua casa, o homem de meia-idade caminhava num ritmo lento e casual. Entretanto o que chamava a atenção eram seus ombros joviais que se faziam curvados como se estivesse pronto para seu desenlace. Visível, sua curvatura não deixava mentir. Era uma culpa desmedida e incoerente pois acreditava ter magoado seu amigo. Porém, na sua andança, foi parar em suas mãos um desses simples cartões que nos são entregues por mil ruas desmerecidos de nossa atenção, e nele estava um confortante trecho, um calmante para sua extenuante agitação. Dizia: "Ter um amigo é importante. Mais importante é compreender que você, como ele também, pode em algum momento não fazer jus a essa amizade. Muito mais importante, é você compreender que uma atitude desaprovada sua ou dele, não quer dizer que foi má intencionada, e com isso, não dariam mais crédito a essa amizade. Pois não sabem o que estão fazendo. No entanto, sábio é aquele que continua a dar crédito a uma amizade por mais defeituosa que seja."
Poético fogo
maio 04, 2010
O futuro

Seus olhos miravam pontos distantes naquela surpreendente paisagem. Miravam numa tentativa de sentir e antecipar o futuro. Na verdade, não há analogia entre distância e futuro, tampouco com o passado. Tudo se intercala nesse diminuto e importante instante que é o agora. Pois deu-se conta disso e numa ação concreta, projetou na sua tela mental, como uma tela virgem de pintar, a criação de seu futuro, seja a seu gosto, com rascunhos, borrões e cores para deleitar, na sua criatividade latente, pujante e não menos responsável, porque aquilo que se imagina infalivelmente se materializa.
abril 22, 2010
abril 14, 2010
Balaio de gente

Estavam ali os três homens a dividir um pestilento teto na metrópole com as despesas de aluguel, alegrias e desventuras. Quis o destino imposto por eles mesmos inconscientemente por uma irresistível atração chamada de afinidade, de reunir sobre o mesmo teto três figuras com idênticos destemperos de personalidade. De certo, não poderia ser diferente. Alguns elementos da natureza não se misturam. Tiveram a chance de conviver com pessoas de maior envergadura moral e estranhamente recusaram. Nem a ciência explica. Por serem interesseiros e suspeitosos, era fácil de imaginar que eram inimigos das boas e sinceras amizades. Tais quais raposas a se entreolharem, chegaram ao cúmulo de suspeitarem um dos outros no mesmo ar que respiravam. Quis o destino, cômico até, de juntar três num balaio só.
abril 12, 2010
Nas trincheiras

O comportamento daquele homem focado na atraente zona do conforto não lhe permitia a andar por aí, livre e espontâneo, experimentando o leque de possibilidades e desafios que a vida na sua ávida sabedoria ofertava. Espantadiço, tinha medo do novo, do impalpável, costumava mergulhar nas águas da mesmice definhenta onde sequer ondulava. Em alguns momentos vivia militarmente numa desconfiança infundada de tudo e de todos, onde fazia das esquinas, mesmo aquelas alegres e dinâmicas, profundas trincheiras para lhe proteger dos possíveis julgamentos e decepções que as pessoas poderiam provocar. A inércia, no inevitável movimento das coisas, demonstra ser um estado passageiro e sem fundamento, o que fez uma misteriosa mão, segura e ao mesmo tempo delicada, deslocar esse homem do seu eixo habitual para fazê-lo entender que um pequeno passo de olhos fechados para o novo impalpável, soa como um gigantesco passo para seu propósito como homem.
Irmandade

Ele não concordava com denominações. Não dava sermões, longe disso, apenas queria com que os outros reavaliassem seus papéis sociais. Como um filósofo grego a perambular, em cada esquina convidava uma pessoa para pensar. Pai de longa data, também acreditava que tinha o dever de exercer o papel de pai, avô e irmão com as pessoas de fora de seu círculo limitado familiar, porque para ele, a paternidade e a irmandade é inelutável e abrangente.
abril 06, 2010
A tormenta

Parou a beira-mar. Olhou para cima e para os lados. Figuras estranhas desenhavam o céu. As ondas batiam fortemente no píer e o vento forte curvava as árvores e as placas de publicidade. Pessoas corriam apressadas em busca de um abrigo qualquer em meio a chuva que vinha mais forte. Parado ali, fincado naquele metro quadrado muito particular como se estivesse numa bolha, tudo estava calmo, incrivelmente calmo. Não sentia o vento contornar sua face. Estava na posição de observador. Alguns notavam sua presença, outros não. Os que notavam ficaram atônitos ao verem que no interior daquele excelso homem, estava incrustado afirmações em incandescentes letras de vermelho fulgor que diziam: "semelhante a uma sólida coluna", "nem mesmo envergarei", "no olho da tormenta tudo é paz e harmonia".
abril 05, 2010
O andarilho

Aquele andarilho era uma pessoa radical no superlativo. Costumava tumultuar os ambientes com seu modo de ser impulsivo, exarcebado, dispersivo e de opiniões rígidas. Aquilo que se pode nomear como sendo o acaso, algo indefinível, vago e notoriamente alegórico, fora o responsável em conduzi-lo maternalmente a uma paragem de seu caminho para um ensinamento. Nesta paragem notava-se que a faixa central na pista dizia algo para ele. Dizia que seria prudente que ele fosse centrado e evitasse os extremos.
abril 04, 2010
Santa densidade
abril 01, 2010
Rima
março 29, 2010
O humanitário

Ninguém poderia imaginar que aquele rapaz no pico de sua sarada e promissora vida tomasse a decisão em sã consciência e desprovido de rodeios de abandonar sua realidade confortável. Cansado das facilidades de seu mundo pessoal, decidiu num átimo ao levantar de uma ensolarada manhã, embarcar numa viagem na contramão do percurso sóbrio e previsível das pessoas comuns da sociedade atual, no intuito de conhecer, segundo sua definição, o outro lado da moeda, lado este da escassez e do sofrimento nos rincões desse mundo. Sua família não entendeu, tampouco seus amigos, essa ação de nada tinha à luz do autoflagelo, apenas o desejo sincero da compaixão.
março 22, 2010
Sempre atento

Era meio da madrugada em uma noite cintilante e profunda. Sobre os infinitos grãos de areia da praia um grupo de pessoas deixam suas cantorias e pensamentos serem levados pela brisa incessante. Ali nem tudo era alegria. De repente, num levantar denso e silencioso, uma moça caminha em direção ao meio da praia. Ninguém naquele grupo parecia interessada em ouvi-la e sua presença ali não era notada. As músicas e a bebida pareciam ter mais importância do que seu desabafo. Sentada, teve a horrenda idéia de mergulhar no oceano revolto daquela noite, para sei lá, refrescar sua mente febril. Esse ato insano parecia intencional. Dentre aqueles que estavam nas cantorias, apenas um a seguiu. Prestativo, paciente e sempre atento ao que se passa ao seu redor, como poucos hoje em dia, a moça teve a sorte de encontrar naquele momento delicado de sua vida, alguém, tão somente um, jóia rara, para aproximar-se dela com delicadeza e decisão para salvá-la e ser seu manso e fiel confidente.
março 17, 2010
Partindo...
Passagens de estações

Passagens contínuas de estações
Folhas caem, cores se vão
Neste círculo vai-se o cabedal
Ganhar e perder
Na cordura nada me faz temer
Da embriaguez das coisas que caem pelo chão
Da palidez sem vez
Argumentos alegres para crescer
Lamentar no intuito de que
Da aparente morbidez perpetuada
Um desabrochar de vida para surpreender.
março 16, 2010
Um olhar

Ele estava sentado no sofá quando num rabo de olhar viu alguém adentrar a casa. Era seu irmão com a pele rubra e os lábios cerrados. Já imaginara. Essa feição é dos que tentam e logo se decepcionam, afinal , o que esperar de alguém com uma visão de mundo tão estreita? Sem pudor, achava que as coisas se conquistavam por meios nem sempre honestos. As chamas de suas conquistas se acendiam e tão logo se apagavam. Por um momento se entrelaçaram num olhar decisivo e por não dizer, derradeiro, e somente por este olhar, achou que seu irmão despudorado parecia ter aprendido com seus enganos. Bem, só parecia. Como alguém a bater sempre na mesma tecla, só olhou, não disse nada e retirou-se para o seu quarto em silêncio para continuar a trilha dos enganos. O seu despertar ainda não foi dessa vez.
março 10, 2010
O velho sábio

O velho sábio fazendeiro conduz seu querido neto para uma conversa esclarecedora. O neto, muito curioso, já queria saber de antemão as artimanhas do velho. O velho portando um bumerangue e com a singeleza habitual dos que humildemente chegaram até a idade avançada, começou a esclarecer o significado do bumerangue, não como um mero objeto lúdico, e sim como um objeto cultuado na localidade, por exemplificar de maneira conclusiva a ação e reação ao lançar, fato é, uma lei da física e uma lei para o coração do homem. Para o menino, a base e o ensinamento primordial para suas ações na vida, tanto boas como más.
março 08, 2010
O triatleta

Fim de prova. O triatleta vencedor começa a recordar os obstáculos superados. Suas virtudes, sobretudo físicas, foram importantes para essa conquista. Comemoração veio mas logo se foi. Num tilintar caiu na real e sentiu no âmago que sua realidade é dura. Inúmeras dificuldades de ordem íntima ele encontra para viver. De nada serve sua invejável condição física. Durante a prova, ele percorreu o mar e as estradas. Agora, durante seus dias, tem que percorrer caminhos ainda mais difíceis, torturantes até então. Perseverança e constância são as virtudes a se armar. Sua alma vacilante cai seguidas vezes. Se fosse uma competição, já pensaria na possibilidade de desistência. Anos a fio foi imprudente ao negligenciar os cuidados com a matriz de si mesmo, ou seja, sua alma, o carro-chefe de sua existência.
março 07, 2010
A pureza

Refletindo, olhou para a nuvem e depois para o seu coração. A nuvem transbordou e fez chover. Em seguida seu coração transbordou e a fez falar. O que se ouviu foram palavras cheias de mágoas, que a fez lembrar o que haviam falado, "o que da boca sai é o que se tem em abundância no coração." E nesse súbito despertar, sabe se lá como, talvez como um filete de luz a cair em consciência, entendeu, e num gesto olhou para o céu, repousou a mão sobre o seu coração e jurou ser mais pura e amorosa.
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