fevereiro 18, 2012

O rapaz que não tinha (quase) nada

Pintura: idolno!

Na rua existia um prédio. Este destacava pelo abandono. Mesmo assim havia gente. Famílias sem teto, que ao longo dos anos foram ocupando as suas dependências. Movido pela curiosidade, adentrei. Lá dentro, os adultos tinham uma confiança na vida e as crianças eram formosas, entretanto, o que me chamou a atenção, foi uma kitchenette sem a porta de entrada, onde morava um rapaz. Como nela não tinha uma porta para bater e nem uma campainha para tocar, não havia um limite entre o que era privado e público. Pois o rapaz nem se importava. Na parede da sala estava escrito a frase "a paz seja convosco!", de canetinha mesmo. O interessante também, foi verificar que tudo o que ele possuía, era apenas uma cadeira para sentar, um colchão de molas para dormir, uma pequena televisão para distrair, algumas peças de roupas para vestir e um vaso de flores para enfeitar. O rapaz, vendo a minha curiosidade, disse: "Quem tem um vaso de flores, tem todas as belezas." Verdadeiramente, este era um minimalista.

fevereiro 10, 2012

A impulsividade e a vergonha


"Cresça, apareça. Ao ver algo de errado, não se omita."
Essas palavras ressoavam constantemente em sua cabeça. Incomodava tanto, que vivia sequioso em mudar de atitude. Garimpava oportunidades para interferir em tudo aquilo que se fizesse necessário. Ouvia sempre de seu tutor: "Pior do que um homem mau, é o homem que vê o mal e acaba se calando. Esse tipo se compraz inteiramente com a maldade. Porém, tenha cuidado. Não subestime a maldade." Ele estava tão sequioso, mas tão sequioso, que certo dia, em praça pública, viu dois homens numa ríspida peleja, a ponto de se agredirem. Antes de chegarem as vias de fato, ele interferiu, separando-os, para pregar o respeito mútuo: "Parem! Parem com isso!" Logo em seguida, ele foi impedido por uma outra pessoa pela retaguarda, que irritada, disse aos berros: "O que você está fazendo! Nós estamos gravando!" Perdido naquela intempestividade do momento, ele custou em perceber todo o aparato de cena ao seu redor. Ele paralisou uma externa de gravação! Ruborizado, queria se explicar. A sua impulsividade criou-lhe uma armadilha. Em meio aquelas pessoas em praça pública, onde a arte estava imitando a vida com todos os seus pormenores, a sua vontade cega, mesmo que bem intencionada, mas sem o devido bom senso, conduziu-lhe para as raias da vergonha em público e da vergonha alheia...

fevereiro 01, 2012