março 11, 2014

Contratempos de um capitão

Pintura: Navio Pesqueiro / Autor: Sandro José da Silva
 
O velho capitão era um profundo conhecedor das águas do mar do norte. Ele e mais alguns homens partiram para a pesca em águas profundas, a bordo do navio pesqueiro mais destemido da região.

Num dia de mar agitado e temperatura congelante, o capitão determinou: "A pesca não foi boa e as expectativas não são muito animadoras. Vamos antecipar a nossa volta."

O consenso foi geral, entretanto, o argumento utilizado para justificar essa decisão foi contestado. Segundo ele, Netuno - o deus dos mares - não havia cooperado para o sucesso. Um dos homens retrucou: "Conspirar contra Netuno é uma blasfêmia. Apesar das dificuldades, estamos satisfeitos e agradecidos pelo que Netuno nos ofereceu." Traços de ingratidão foram percebidos no semblante do velho capitão.

Com a decisão tomada, os esforços se voltaram em chegar a tempo para o primeiro aniversário de seu neto. O nascimento do menino deu um novo ânimo para um homem cansado pelas intempéries da vida.

Após longas horas de viagem, se avistava no horizonte as falésias e o farol amigo das embarcações. O entardecer vinha a galope e quanto mais o navio pesqueiro se aproximava da costa, mais o oceano dificultava. "É estranho. Parece que a corrente marítima se inverteu e uma espessa neblina vem caindo" - comentou um preocupado capitão. Um outro homem, sábio nas lides do oceano afirmou: "Netuno está lhe dando um corretivo. Isso é recorrente dos deuses."

E o que sucedeu, foi um confronto da força do homem frente a força da natureza.

Certa hora, o capitão, de joelhos dobrados e coração dilacerado com a possibilidade de não chegar a tempo para um afago em seu netinho, reconheceu a sua fragilidade e seu equívoco, e com isso fez despontar à sua frente um caminho suave, guiado pelo voo seguro de algumas gaivotas, rumo ao encontro com o seu querido neto.