março 25, 2011

Tempo estático


Flutuava sobre as horas corridas,
ao invés de deixar-me oprimir pelo jugo delas.
Paralisava os meus relógios quando achava conveniente
(inclusive meu cinquentenário relógio de parede),
numa resposta rasteira aos burburinhos de que os dias passam mais rápidos.
Porque não há nada mais pessoal do que os ponteiros do tempo.

março 12, 2011

Sujeiras


Pó e sujeiras pela casa
Pego a vassoura
Vou pro quarto
varro

Vou pra sala
varro
Vou pra cozinha
varro

Todos os cômodos estão limpos.
Somente agora,
após quinze anos morando aqui,
percebi varrendo
que as paredes estão fora do esquadro.

Vou pro quintal
cheio de sujeira das queimadas
Agosto é sempre assim
varro

após cinco minutos
mais sujeiras
varro

de cinco em cinco
durante a tarde inteira
varro

não aguento mais
vou pegar dois baldes cheios d`água
vou apagar essa maldita queimada
deve ser uma queimadinha,
no terreno baldio ao lado.

Era um grande incêndio
consumindo os arredores da cidade
em breve, nossas casas.
Ninguém me avisou.

março 11, 2011

março 04, 2011

A silhueta

Imagem: OrangeUtan

Uma silhueta de felino estava em guarda sobre o muro. Para não se ater a uma ideia vaga, fechou e abriu seus olhos algumas vezes para constatar que não se tratava de uma mera imagem fantasmagórica das noites de antanho. Tratava-se de algo com um rabo altivo, uma maquininha de ronronar e um par de olhos com pupilas verticais, que brilhavam feito faróis, não somente para vasculhar as lápides ou para guiar e dar uma sobrevida para os moribundos da noite lúgubre, mas também para antecipar aos flagrantes daqueles que agem perversamente pela surdina, como ele. Aquele olhar intimidador na contraluz da luminescência lunar, provocou-lhe um estado de desassossego, um rasgo de punhal na sua vã agudeza de espírito, como era de se esperar, já que ordinariamente o malfazejo desmascarado jura com a venda nos olhos e com as disposições do ego, de que os malefícios são ocultos no silêncio das horas altas.