outubro 13, 2016

Destruição

Pintura: A Ventania (óleo sobre tela) / Autor: Anita Malfatti

Quando as nuvens mais escuras baixaram, as pessoas se recolheram em suas casas. Os raios e as primeiras gotas de chuva começaram a cair. Até então parecia apenas mais uma chuva de verão. Porém, aquelas gotas de chuva foram se tornando cada vez mais grossas e em pouco tempo se transformaram em pedras de gelo enormes. Elas quicavam nos telhados sem dó nem piedade e atingia com força a lataria dos carros estacionados na rua, para o lamento de seus respectivos donos. O vento se tornou tão forte que algumas árvores se contorciam e perdiam a beleza de seus galhos e o acolhimento de seus ninhos. O uivar do vento atingia o ouvido das pessoas e dos animais com um viés apocalíptico. A energia do bairro caiu instantaneamente. No quintal da casa, o fluxo d'água se tornava intenso até chegar ao ponto em que o ralo não dava vazão para tanta água devido ao acúmulo do granizo. O jardim ficou todo branco e as plantas arrasadas. Num determinado momento a tempestade foi se amenizando para mostrar a real dimensão dos estragos. A garagem e o quintal era um misto de pedras de gelo, folhas e galhos de árvores. Para espanto, havia também muitos passarinhos mortos de bico vermelho e peninhas de cor cinza, que frágeis, sucumbiram diante da tempestade. Nesta casa havia um recém-nascido de apenas um mês de idade, que atravessou a agitação inteira num sono profundo dos anjos. Acordado pelos pais em seu gracioso berço, foram verificar estupefatos o estrago deixado pela tempestade. Lá fora, com o amamento da mãe, pôde abrir os seus olhos e ter o contato pela primeira vez com a morte e a destruição. A natureza havia cumprido o seu papel.

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