Uma dezena de pessoas choravam pelo ancião falecido. Ordinariamente, poderia ser mais um velório, no entanto, este atentava para uma curiosa particularidade - a feição de contentamento dele. Fazia-se notar em seu semblante, um leve e lascivo sorriso de canto, próprio daqueles que faleceram satisfeitos com a ocasião. E realmente foi. Sua coronária não resistiu às investidas de uma intrépida e ardente jovem de vinte e poucos anos. Ninguém percebeu esse estado de contentamento cristalino, porque a atmosfera do pesar e do pranto causou um severo embotamento dos sentidos de todos. De pobre coitado ele não tinha nada, afinal, quem não gostaria de falecer de tal maneira semelhante e abrupta? Um comentário pós-velório foi dito por um distinto familiar para outro: "De uns tempos para cá, tenho observado os requintes dessa engenhosa senhora chamada Morte. Surpreendo-me com suas maneiras originais e recreativas de promover a passagem para o outro lado. Todavia, até os nossos queridos e amáveis animais de estimação empenham a seu favor, antevendo e tocando os locais do corpo dos adoecidos onde as chagas vão aparecer, com seus olhos cheios de fraternidade perante a morte iminente." E o outro familiar completou: "Decerto, isto tem uma explicação plausível. Talvez seja um forma dela nos dizer para que não a levemos tão à sério, porque ela se assemelha a uma leve e jubilosa mulher e não uma velha facínora e carcomida."
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